Ainda não tinha assistido ao filme de Tarantino, Django. O fiz recentemente por obra da ridícula programação dos canais pagos que repetem filmes à exaustão. Por conta disso, naquele momento o menos ruim e mais atrativo era uma cena de James Foxx treinando tiro num boneco de neve. Enfim, o rolezinho de palavras é pra lembrar o quanto atual e genético são as ações racistas.

Lembrar desse filme me remete ao episódio do jogador Tinga. Situação vexatória para dizer o mínimo. Não, não por parte da torcida, mas, sim, de arroubos de indignação pedantes. Essa exagerada condição do politicamente correto, que é mais coerção e assédio do que qualquer outra coisa, agora se volta contra a legítima atuação de torcedores de futebol, em situação de limitada alegria, vez que é restrita a 90 minutos.

Num campo de futebol xingamos o juiz, a mãe dele e toda a sua família há séculos. Treinador e cartola, então… E nunca ninguém morreu por isso. Vivemos futebol no sangue. E todos torcedores que somos nunca levamos além dos gramados as diferenças que o amor à bola constrói. Salvo, é claro, alguns poucos idiotas.

Seria legal se todos com essa mesma indignação se voltassem numa cruzada para eliminar, de uma vez por todas, a indiferença do Estado em eliminar a raiz da insegurança que mata sem ser incomodada. Eliminar também a ausência de interesse em se promover ações firmes e permanentes para a inclusão dos cidadãos excluídos socialmente. Bem como uma atenção maior à condição dos encarcerados para avançarem como cidadãos.

Uma das cenas marcantes do filme Django, na minha opinião, é a chegada dele à fazenda onde sua Brunilda está. A fala de um negro escravo ante um negro liberto demonstra quão forte é a cultura secular implementada de maneira permanente. Dá resultado. E é esse mesmo resultado que devemos perseguir, ou seja, apenas substituindo o malévolo pelo bem estar de todos. Simples assim.

E ainda hoje é assim, não somente entre negros, mas entre pessoas de diferentes classes sociais. Classes essas muito bem definidas desde antes das invasões do Império Romano. Coisa de ser humano. Egoísta. Numa das cenas Di Caprio serra um crânio, de um negro, segundo ele, servil por mais de 50 anos. E que por conta de estudos, marcas em determinada parte de seu cérebro corroboram com estudos científicos com outros crânios negros e brancos, foi determinante para mostrar que negro em qualquer situação é dócil e subserviente.

O que o roteirista se esqueceu de dizer é que assim sendo o mundo seria muito melhor se muitos outros o olhassem como um lugar de fraternidade e comunhão, um templo de servir um ao outro em benefício do coletivo. E que a criatividade sempre anda colada com o poder, e este, inebriante, cega até os melhores de alma. Muitas falas nesse filme remontam argumentos insistentes nas diferenças. Ressaltá-las, as reafirma ainda mais fortes.

Voltando ao Tinga. Se militante fosse interessado nas causas negreiras, as costas teria dado aos torcedores que não eram os seus, simples assim. E aos arautos do momento, pronunciariam uma única frase: indignem-se com a cor da exclusão. Indignem-se com a cor dos apreendidos nos rolezinhos que gritam por inclusão social. Indignem-se com a cor da pobreza. Indignem-se com a indiferença ao assassinato da juventude negra que é do mesmo tamanho de guerras continentais. Indignem-se por se confundirem sem entendimento das questões que são importantes à cidadania, pois a nulidade contribui para manter o acesso ao ódio e ao caos.

 

José Amaral Neto