Obituário é o tipo de coluna de um jornal que não gostamos de fazer. Ora pela sensação de ostracismo, já que o personagem é o foco; ora porque o diálogo se trava no nosso interior, com nossos medos, com a concreta finitude do qual somos subservientes. Mas, também, o medo de encontrarmos algumas de nossas referências positivas que marcaram nossas vidas. É o que ocorre agora com Gerson Miranda Theodoro, conhecido no universo da militância da luta contra o racismo como Togo Ioruba.

É deste parceiro que tenho de tecer algumas mal traçadas linhas. Gerson Theodoro, no último dia 20 de julho, não suportou mais as vicissitudes de um câncer no estômago. Cremado, suas cinzas se elevaram aos céus, conforme fora seu desejo. No Cemitério São Francisco de Paula, seu filho e nora, sua companheira, seus enteados, familiares e amigos de longa data, todos irmanados no misto de dor e nas boas lembranças dos variados momentos vivenciados. 

Minha admiração começou por meio de sua produção intelectual com o Jornal Maioria Falante. Do contato virtual, fui buscar o físico. E assim que vi a divulgação de uma palestra que iria fazer em um colégio estadual em Quintino me bandeei para lá. A professora Carla Lopes levava intelectuais negros para falar sobre sua produção para professores e alunos e assim trabalhar a Lei 10.639/2003.

A palestra-aula foi, óbviamente, impactante. Grudei nele, igual a chiclete na sola do tênis.

Tempos depois, fui beber de sua sapiência para entender como foi a construção daquele jornal, que para mim até hoje é um excepcional veículo comunicacional, ímpar no gênero, que não é centrado em si mesmo, e que oportuniza o dialoguismo. Cansei o companheiro com tantas perguntas e daí não teve jeito, se já era apaixonada pelo seu trabalho, conhecendo a sua lógica, fiquei mais ainda. 

Anos depois, na gestão da 3ª edição do Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento, indiquei seu nome para a entrega da premiação da categoria Mídia Comunitária/Alternativa. Após o ok do nosso coletivo, fui fazer o convite oficial ao meu mestre. Ficou vivamente feliz: dizia que eu (nós) o tirava do ostracismo, pois não militava como antes.

No dia da cerimônia do Prêmio Abdias, lá estava o belo casal, Togo Ioruba e Renata Fortes. Lindo casal, garboso, feliz, merecedores. Quando o catálogo ficou pronto, levei-o para meu amigo que junto com Renata puderam rememorar aqueles momentos alegres.

Bom, era um mínimo que nós, da Cojira-Rio/SJPMRJ – Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, poderíamos fazer, uma singela homenagem a quem deixou um expressivo legado no campo da comunicação étnica e, mais ainda, no campo da luta pelos Direitos Humanos – relações raciais – que soube usar a mídia impressa e traços como ferramentas em prol de informação e mobilização. 

Outro momento marcante foi o Seminário Raça, Gênero e Democracia em Perspectiva Comparada: Diálogo Brasil e EUA I que aconteceu em agosto de 2015, com a presença de várias personalidades da militância de movimentos sociais, em especial do combate ao racismo, entre elas a de Keith Jennings, ex-diretor da Anistia Internacional, a frente da comitiva de membros da The African American Human Rights  EUA. Togo me convidara para ajudá-lo nesta empreitada, assim como vários parceiros-irmãos como Filó e Valdete, entre outros. O evento teve um belo desdobramento na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

São muitos os sentimentos que afloraram desta parceria construída em tão pouco tempo. Meu amigo de estudos, meu amigo de concurso de pós-graduação, meu amigo de aula: amor, gratidão, irmandade. Agora são outros sentimentos, que não quero que se fixem, mas que são inerentes ao ser humano medroso da constatação de sua finitude natural. Prefiro que se solidifique o sentimento da eterna gratidão de poder ter tido a oportunidade de convivermos, de termos brincado, estudado, conversado, cunhado uma amorosidade cúmplice com esta dupla dinâmica.

Só posso agradecer. Dói. Não vou fantasiar. Mas tenho de agradecer e reverenciar os momentos desta convivência possível. 

Togo Ioruba, nome afropolitico de Gerson Theodoro, era doutorando em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ. Bacharel em Artes Cênicas com especialização em Cenografia, com Licenciatura em Educação Artística, pela Universidade Rio de Janeiro (UNIRIO). Ativista pelos Direitos Humanos dedicou-se a luta contra o racismo atuou com mídias negras, em especial com a criação do Jornal Maioria Falante, o qual editou e ilustrou com um seleto grupo de ativistas e intelectuais.

Obrigada por ter tido a oportunidade de conviver com você Togo Ioruba. 

 

Sandra Martins