A Nigéria é o maior país da África, com uma população de 175 milhões de habitantes e uma democracia em fase de consolidação, depois da crise política nos anos 1990. O país enfrenta problemas internos, além de enorme corrupção política. É um dos principais produtores de petróleo do mundo (95% das exportações do país), com PIB maior que o da África do Sul, mas, contraditoriamente, a renda per capita (US$ 2.800/ano) é baixa e a população miserável ultrapassa os 70%. O povo nigeriano conta com mais de 250 etnias: as principais são a Hausa (29%), Yoruba (21%) e Igbo (18%). Estas etnias se dividem em 50% de muçulmanos (mais ao norte do país), 40% de cristãos (mais ao sul), além de 10% de outras religiões.

É nesse caldeirão que surge o  Boko Haram, com seus seguidores se dizendo fiéis ao islã e objetivando com que o país adote a sharia (lei islâmica) como fonte de sua legislação. O nome oficial da organização é Jama´tu Ahlis Sunna Lidda´awati wal-Jihad ou seja “Pessoas Empenhadas na Propagação dos Ensinamentos do Profeta e na Guerra Santa”. Em 2002, residentes da zona de Maiduguri apelidaram a organização de “Boko Haram” – sendo Boko uma derivação da palavra inglesa “book” (livro) e “haram” é a palavra árabe para pecado. Ou seja, figurativamente a educação ocidental ou não islâmica é pecado.

O Boko Haram ganhou força capitalizando o ódio popular contra a corrupção, mas sofreu uma queda de popularidade ao cometer assassinatos contra muçulmanos moderados e atentados à bomba contra igrejas e locais públicos. A questão é que as ações do Boko Haram são uma afronta à fé islâmica e um ato que merece resposta internacional de todas as religiões. Tanto é que membros de associações islâmicas e da comunidade nigeriana nos EUA se uniram para apoiar a libertação das 276 meninas, com idades entre 16 e 18 anos, sequestradas em 14 de abril, na cidade de Chibok, no norte da Nigéria, pela organização terrorista. 

"O ocorrido com essas meninas vai contra todos os princípios humanitários e transgride claramente as doutrinas do Corão. Essa gente não respeita fé alguma", explicou Zainab Chaudhry, do Conselho de Relações Islâmico-americanos (CAIR). Para o Imã (alta autoridade sacerdotal) Mahdi Bray, diretor da Aliança de Muçulmanos Americanos (AMA), declarou a Agência de noticias francesa, EFE que a "educação ocidental ou de mulheres não é pecado; ao contrário de sequestrar meninas, aterrorizar e escravizar. Isso sim é pecado. Essas meninas também são nossas filhas", acrescentou.

A campanha que está nas redes sociais a #BringBackOurGirls é um sucesso, a hashtag foi utilizada mais de 1,7 milhões de vezes, segundo o site  topsy.com especializado em análises do Twitter, superando a expectativa da nigeriana Hadiza Bala Usman, uma das organizadoras do movimento.

A mensagem já foi reproduzida por inúmeras celebridades, o que fez com que a mídia internacional passasse a dar uma cobertura especial ao caso. O mundo está vigiando as ações do presidente Goodluck Jonathan, os Estados Unidos estão patrocinando ações de busca e resgate, que envolvem o Pentágono, e o presidente Barack Obama tem se manifestado publicamente.

O Reino Unido também prometeu enviar uma equipe de conselheiros governamentais, a França ofereceu ajuda e até o Vaticano repudiou o ato e cobra providências.

Ruanda, 20 anos depois

Toda esta mobilização internacional faz com que acreditemos que o mundo deve ter aprendido algo com a omissão das Nações Unidas no que diz respeito aos conflitos étnicos na África. Quem pode esquecer (e deixar de se envergonhar) da omissão mundial com que observamos os confrontos ente Tutsis e Hutus, em Ruanda, quando 800 mil pessoas foram mortas, entre 6 de abril e 4 de julho de 1.994?

O mais grave é que já no início dos anos 1990, agências humanitárias e a ONU vinham documentando matanças isoladas e o agravamento da situação no país. Quando o genocídio efetivamente começou, as lideranças políticas foram também avisadas e, ainda assim, a ONU não aprovou uma intervenção militar, além de diminuir o número das forças de paz. Após o massacre houve pedidos de desculpa de vários governos, como o americano, que numa tentativa de se redimirem contribuíram com recursos para a reconstrução (?) do país.

O que precisamos ter em mente é que os erros cometidos há vinte anos, não podem ser repetidos agora: em Ruanda, a ONU e seus aliados, desprezaram e entenderam como "atos menores" as barbaridades cometidas pelos extremistas, seguido pelo erro de julgar o pequeno país, localizado no Centro da África, sem recursos minerais, como um Estado que não suscitaria nenhum interesse econômico e sem influência política; Outro erro foi não enxergar o genocídio como um ataque planejado com o objetivo político de manutenção de poder, e por último  a imprensa que reportou o conflito como uma  motivação  "tribal" com "raízes de ódio",  causando a despolitização do conflito, passando a ideia  de que era um confronto que não poderia ser resolvido.

O problema é que dois dos erros descritos acima já estão sendo praticados: o primeiro de desconsiderar que o Boko Haram, conforme já dissemos, vinha cometendo ataques a  igrejas, escolas e cometendo atos terrorista, já há algum tempo; o segundo é  o tratamento que a imprensa vem dando ao conflito como uma guerra religiosa, retratando o Islã como bárbaro, irracional, primitivo e sexista – despolitizando o conflito. Tenhamos claro que o que está acontecendo na Nigéria é a tentativa de manutenção do poder político da região Norte sob o resto do país, por este grupo. Torçamos para que a produção de petróleo nigeriano não seja a única motivação capaz de manter viva o interesses de resolução deste conflito, manifestados pelos lideres dos grandes países que tem assento na ONU.

Assine  #bringbackourgirls

Para saber mais: Pronunciamento de Michele Obama

https://www.youtube.com/watch?v=PYb2Nnkr_EU

Marcelino Conti