Algumas destas figuras extrapolam o papel e o roteiro que a sociedade racista criou para eles e – mais realistas do que o rei – utilizam o seu poder midiático para combater as demandas históricas da população negra organizada. Declarações de que nunca foram discriminados, oposição às políticas afirmativas, desprezo à cultura ancestral são alguns exemplos.
Existem outros, ainda, que maximizam suas ações para demonstrar compromisso com a sociedade que à 500 anos maltrata sua gente e que – eles supõe – agora os acolheu porque conquistaram certa ascensão social. Colocam-se, assim, explicitamente à serviço do racismo, potencializando o dano que ele causa.
O clipe “Kong” do cantor Alexandre Pires, do qual participam o jogador Neymar e o cantor Mr. Catra é o mais novo exemplo a que nível pode chegar a alienação e a imbecilidade de celebridades negras que em poucos anos de sucesso esqueceram completamente de onde vieram e quem são.
Qualquer negro ou branco, com um mínimo de compreensão da histórica discriminação racial no nosso país ficará pasmo ao assistir o filme que apresenta homens negros, saindo da floresta vestidos de macacos e invadindo uma festa onde, à beira de uma piscina, passam a flertar com diversas mulheres (brancas) ao som do refrão “É no pelo do macaco que o bicho vai pegar”, explicitando, da forma mais grotesca possível, suas concepções acerca das relações inter raciais e, de quebra, reforçando a cultura machista que têm norteado grande parte destas relações.
Não há como contemporizar com a atitude de Alexandre Pires, Neymar e Mr. Catra, que do ponto de vista legal, devem ser tratados, sem nenhuma espécie de subterfúgio, como criminosos e – esperamos – exemplarmente punidos.
Do ponto de vista humano, só podemos lamentar que três jovens negros, que enriqueceram e conquistaram espaço na mídia graças ao seu talento, o apoio e a torcida de milhões de negros no pais inteiro, optem por se ombrearem com os herdeiros daqueles que, após enriquecerem graças à trezentos anos de trabalho, tortura, violências e morte de milhões de africanos seqüestrados, insistem em manter seus descendentes na marginalidade social, negando-lhe, inclusive a condição de seres humanos.
No decorrer de um ano em que estamos acumulando vitórias históricas junto à sociedade e o Poder Judiciário, que o julgamento da constitucionalidade das cotas pelo STF é o maior exemplo, é inacreditável que artistas, gravadora, empresários, patrocinadores, exibidores se unam para produzir o verdadeiro lixo que aquele clipe representa.
Ao optar por ofender os 52% da população brasileira que se auto declara negra essas três celebridades, assim como os demais profissionais envolvidos, passaram a trilhar um caminho sem volta rumo ao divorcio total com o povo do qual são oriundos e de quem receberão desprezo na mesma proporção que manifestaram naquele clipe imundo.

Ramatis Jacino