RESUMO

Nosso artigo procura tratar o conteúdo dos argumentos afirmativos proferidos pela líder internacional Graça Machel, em sua palestra realizada no memorial da américa latina, evento realizado pela Flink Sampa – Afrobras em novembro de 2014.

As três premissas de Graça Machel fazem parte de um projeto macro econômico para a equidade dos afrodescendentes no mundo, dado que sua experiência ao lado dos dois grandes líderes Samora Machel e Nelson Mandela foi baseada fundamentalmente em governos cuja principal necessidade pós-independência foi a redefinição de um projeto de governo em um país secularmente alijado pelos países europeus colonialistas, esta experiências mudaram a medida que o capitalismo e o liberalismo evoluíram, porém não modificou as bases para as transformações tão necessárias para a população negra na África e diáspora. Neste sentido, elaboramos este artigo com a finalidade de rediscutir brevemente cada premissa e as questões relacionadas ao atingimento destas premissas no ambiente científico, econômico e político brasileiro.

O problema 

A partir da década de 90 a globalização, o multiculturalismo, e o movimento pela responsabilidade social provocaram mudanças sobre como se pensa e age diante de uma sociedade e mercados cada vez mais diversos. No Brasil, esse tema uniu-se às reivindicações do movimento negro e colocou em pauta as questões de discriminação e diversidade raciais. As instituições públicas, privadas e as do terceiro setor começaram a assumir o desafio de diminuir a discriminação racial e ao mesmo tempo procurar maneiras de abraçar a diversidade racial que caracteriza o país.

Surgiram ações afirmativas na forma de cotas raciais nas universidades e alguns Ministérios, sobretudo pela pressão internacional que alguns organismos promoveram, estimulando ainda mais o debate. As empresas não podiam ficar fora da discussão por muito tempo e começaram a tomar medidas em resposta às cobranças da sociedade e/ou em função da disseminação de políticas e práticas de diversidade, oriundas de suas matrizes localizadas em países estrangeiros (MYERS).

Por conta deste processo, buscamos neste artigo explorar a dinâmica do trinômio que apelidamos Graça Machel, que compreende acesso e domínio nos campos das: ciências, economia e política. Para nós, a inclusão desde a evasão escolar do ensino básico, fundamental e médio até a oferta no ensino superior e inclusão de pessoas de baixa renda moradoras de locais altamente precários, sinaliza uma metodologia de abordagem histórica, sociológica, econômica e educacional, demonstrando que a interdisciplinaridade ao abordar assuntos de interesse nacional é imprescindível, pois conecta a pesquisa a realidade pessoal, social, financeira e corporativa do problema, agregando a sua performance avaliativa maior significado conclusivo.

Através da dimensão social dos afrodescendentes buscar-se-á compreender a disposição destes grupos no contexto educacional, econômico e político afim de indicar alguns dos problemas que enfrentam e as formas criadas para sanar tais questões.

Para vencer os obstáculos de um país com mais de 200 milhões de pessoas, são necessários instrumentos precisos que o auxiliem na equidade e cidadania de todos, neste sentido a pesquisa busca contribuir para a redefinição macro econômica das políticas de um novo governo que tem como sua principal luta a desigualdade e que reconhece mais do que nunca o avanço e a importância da cédula do eleitor negro(a) brasileiro(a).

A pesquisa aqui apresentada tem como problema a questão: É possível construir políticas governamentais, transversais e macro econômicas que promovam a equidade?

O Consenso

A pesquisa no Brasil possui um caráter eminentemente emblemático dada a atual situação de assimetria em que se encontram negros e brancos no que tange sua participação na produção e repartição das riquezas coletivamente construídas.

Nestes últimos trinta anos a pesquisa em torno das relações raciais no Brasil colocou em xeque uma determinada linha de compreensão que afirma ser o Brasil senão isento de conflitos raciais, pelo menos entre nós estes seriam reduzidos. Esta perspectiva ideológica que afirma a existência entre nós de uma democracia racial não encontra mais consenso se é que este tenha existido em algum momento.(CABRAL) Contribui para a implosão do mito da democracia racial as recentes estatísticas sobre desigualdade racial no Brasil produzidas por instituições prestigiadas no campo das pesquisas aplicadas, tais como: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (DIEESE), Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial (INSPIR), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE) e Instituto Ethos.

De acordo com as pesquisas promovidas pelas instituições acima citadas, a pobreza afeta de maneira diferente negros e brancos, estando também relacionada a outros indicadores tais como, escolaridade, mortalidade, criminalidade, habitação, saúde e saneamento básico que juntos compõem o núcleo do fenômeno que estamos nomeando como pobreza.

A partir destas pesquisas, pode-se avaliar que mesmo aqueles homens e mulheres negros que conseguem vencer as barreiras dos indicadores negativos de escolaridade em relação aos homens e as mulheres brancas, ainda assim os vencedores permanecem em situação de vulnerabilidade econômica.

Gráfico

O quadro social brasileiro permeado de desigualdades estruturadas desde a colonização pouco acrescentou a vida política, econômica e educacional dos espoliados pela processo escravagista, ou seja, suas políticas universalistas nunca englobaram de forma estrutural os descendentes de escravizados: indigenas e negros.

Logo, não é de se admirar que as desigualdades sejam ainda hoje, 127 anos após a abolição da escravidão, aquinhoada sobretudo entre negros/as e indigenas.

As preposições

À partir destas constatações, auferidas na metade do século XX, inicia-se um longo processo investigativo entorno da temática antropológica, sociológica e mais atualmente econômica acerca dos impactos financeiros gerados pela sociedade, um parelelo entre o passado e o presente que conduz a pesquisa acadêmica a uma teia complexa de teorias que desmitificam desde preconceitos salutares até inspirações de economias altruístas, clássicas e neoclássicas alicerçadas na Universidade de Chicago na década de 50 e 60 e timidamente espalhadas pelo mundo desde então.

Este longo caminho da pesquisa, cheio de conexões, estrutura-se em um pensamento democratico, livre de receios e que anseia encontrar dentro das organizações, políticas mais integradas a conceitos tão extensamente publicados, que são sobretudo importantes para a saúde mental de seus colaboradores e  do ponto de vista economico-financeiro uma das únicas soluções viável para o combate ao racismo e a desigualdade.

(…) Em todo o mundo minorias étnicas continuam a ser desproporcionalmente pobres, desproporcionalmente afetadas pelo desemprego e desproporcionalmente menos escolarizadas que os grupos dominantes. Estão sub-representadas nas estruturas políticas e super-representadas nas prisões. Têm menos acesso a serviços de saúde de qualidade e, conseqüentemente, menor expectativa de vida. Estas, e outras formas de injustiça racial são a cruel realidade do nosso tempo, mas não precisam ser inevitáveis no nosso futuro (…) (apud, MARTINS, Dados sobre a desigualdade racial no Brasil).

Projeto

Em nossa pesquisa bibliografica e de campo não encontramos um projeto explícito que houvesse indicado caminhos consensoados, calculados e quem sabe, estratégicos para o combate a esta pratica tão perversa que é o racismo. Estudamos e inclusive participamos porêm como intelectuais orgânicos e militantes,  nas tres ultimas décadas das estratégias, reinvidicações do movimento negro, as posições e concesões do governo e de determinadas empresas para as propostas pontuais que os movimentos isoladamente debatiam e, claro estudamos, em alguns casos, seus resultados imparciais e inconclusivos à luz de uma população declarada de quase 100 milhoes de pessoas.

 Mesmo neste cenário de isolamentos institucionais por parte principalmente de setores do movimento social e negro, foram criadas instituições governamentais cujo objetivo era apoiar a consolidação de políticas de igualdade racial. Porem embora verifiquemos avanços nas construções e implementações sobretudo das políticas de cotas nas universidades e nos cargos públicos, ao analisarmos a conjuntura econômica brasileira percebemos alguns erros metodológicos que aqui gostariamos de humildemente expo-los.

1º Erro de método – príncípios da economia contemporânea

Vivemos em uma economia capitalista, revigorada pela chama escravagista que até hoje não se apagou e ainda aquece o principio da exploração privada a que sempre fomos submetidos. Em uma economia de mercado que funciona à partir dos diagnósticos de advocacy das empresas não poderiamos avançar no combate a desigualdade apenas com ações de inclusão e acesso, porquê?

Pensar subtítulo

Estudamos uma parcela das minorias, grupos religiosos ou raciais que passaram por algum tipo de processo de exploração, seja ele colonização, genocídio, aculturação e/ou escravidão e que conseguiram atingir atualmente equilíbrio economico ou boas projeções.*

Em todos os grupo raciais e religiosos estudados o apontamento de uma liderança foi decisiva para o consenso e unificação dos ideais, é claro que neste processo houveram dissidências, pessoas, lideranças que pensavam de outra forma e escolheram seguir caminhos diferentes mas que não esqueceram da problemática raiz que os unia desde o ínicio.

Um ponto sobre todos os grupos que os diferencia dos afrodescendentes na visão afro economica de continente e diáspora é que nenhum dos grupos analisados sofreu todos os processos de exploração e durante tantos séculos. Este fator contribuiu muito para compreendermos que embora os demais grupos tenham histórias semelhantes, mesmo reunidos em numero e processos de exploração não conseguem superar os numeros da escravidão negra e os danos da mesma na atualidade.

Por tal constatação origina-se este nível de percepção aguçada da temporalidade que esta conectada ao avanço das populaçoes negras, majoritaria em números e que vivem ainda sob o cerco do explorador.

Se o explorador ainda apregoa sob afrodescendentes a lógica econômica da discriminação, como lutar por acesso acadêmico ou por registros em carteiras de trabalho se é senão o explorador que oferta tais oportunidades, somos apenas demandantes de uma sociedade que a oferta e a demanda surgi através de acordos e objetivos corporativos em comum.

Logo, se afrodescendentes ainda estão em baixo da piramide econômica do mundo ocidental, auferimos que nesta posição jamais poderiamos obter um debate real sobre igualdade e equidade em questões como acesso e inclusão.

*O estudo mais detalhado sobre os grupos e demais particularidades do artigo serão posteriormente publicados após a ampla disseminação das proposições a que esse texto se destina.

2º Erro de método – ideologia política

 As dezenas de acordos imigratórios com a europa que o Brasil em seu objetivo de embranquecer e eliminar categoricamente os negros e indígenas trouxeram em sua bagagem as ideologias de estado e sociedade próprias de suas pequenas economias. Como o embranquecimento nada mais é do que uma técnica eugenista de superioridade ariana, não é incomum analisar que mesmo estes imigrantes com quase ou nenhuma condição econômica de acesso, influenciaram a população brasileira na constiuição de diversos principios que vigoram até hoje tais como pobreza, racismo, democracia e principalmente esquerda e direita.

Está neste ultimo principio a morada do problema inicial da desarticulação dos povos negros.

O principio liberal que influencia e controla a economia não poderia tão pouco ignorar a política, de tal forma que através dos sindicatos  controla remuneração do trabalhador, através do governo regula os preços e a concorrência e, por fim, através dos partidos escolhe seus representantes. A iniciativa privada nunca se apegou a révis conceitos de direita e esquerda para os empregadores sempre o crescimento do poder e da organização esteve acima de ideologias. Infelizmente o contrario ocorreu com os movimentos sociais que estiveram sempre ligados ao governo, empresas ou sindicatos mas que mesmo conectados a lógica liberal do empregador sempre criaram discursos existencialmente alusivos a sua trajetória, o que confundiu durante as últimas décadas grande parte da população que após uma ditatura, (feito sempre ocasionado por economias totalmente controladas pelo estado) não encontrara senão nos supostos representantes dos trabalhadores uma saída para a transformação.

À partir da entrada no poder da suposta esquerda na ultima década, percebemos que nossa análise é válida e conclusiva, pois apesar dos esforços muito importantes para igualdade o sistema economico continuou com as mesmas premissas liberais que fora constituido, ou seja, privilégio eterno a quem sempre explorou e o contrário ao explorado, porem como a lógica revolucionária tem como um dos princípios a igualdade o governo criou o que ele chama de “programas sociais”. Os programas sociais nada mais são do que instituições que retroalimentam um sistema econômico liberal e cria uma falsa sensação de transformação que não se reflete nos números da desigualdade, tal como a violencia e o genociodio por exemplo contra jovens negros.

3º Erro de método – o conhecimento

A produção do conhecimento é um fator determinante para o poder que paises, grupos e pessoas detêm para a preservação do seu direito em uma sociedade economicamente liberal. Nesta lógica, não é possivel que a produção de um conhecimento étnico deva ser unicamente orientado e/ou cerceado por quem não vive na pele esta dinâmica. A lógica de desconstrução da cultura alheia ao que lhe afeta negativamente é um processo natural e no caso dos colonizados recompensatório, pois expõe as profundas causas da sua realidade e expulsa de uma vez por todos esse pseudo amor ao opressor.

Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa. (M. Foucault, entrevista: sexo, poder e política).

Neste sentido, a medida que a produção do conhecimento está livre de aculturações e compaixões, a ciência assume seu papel como indagadora imparcial da verdade, como sujeita da transformação e da melhoria individual e do coletivo, coligada da dialética profunda, estarrecedora e clarividente. A ciência segue então seu rumo naturalmente guiado para a evolução porém não mais uma evolução à partir  do colono mas sim à partir das necessidades individuais dos grupos que tem culturas e preferencias exponencialmente distantes.

Porem não a medida de concessão tão ingênua na reconstrução de uma identidade que continuar usando a casa e a tutoria do transgressor na formatação do que para o mesmo não soaria senão como uma apunhalada pelas costas.

Neste sentido, majoritariamente conscientes ou não, a lógica de transformação na confecção e gestão do conhecimento não encontrará consenso junto de quem domina, para quem domina interessa unicamente as razões de mercado que lhes favorece. Não há neste sentido, uma alternativa senão a que se refere constituir institucionalmente uma educação afro centrada que cumpra a função privada, social e étnica que o estado tal como está formatado não tem sequer intenções de fazê-lo.

 

 

 

 

 

 

Leandro Dias