S. Paulo – Em clima de megaprodução e na Sala S. Paulo, antiga Estação Julio Prestes, considerada a mais moderna sala de concertos da América Latina, será entregue neste domingo (15/11), a partir das 20h, o Troféu Raça, organizado pela ONG Afrobras, para ganhadores em 10 categorias.
O Troféu entra na sua sétima edição e consagra o talento do presidente da Afrobras e reitor da Unipalmares, José Vicente (foto), 50 anos, no ramo do negócio de eventos. Desde sua criação, em 2.004, tornou-se um megaevento, que reúne anualmente num lugar chique e com direito à tapete vermelho, autoridades do primeiro e do segundo escalão federal e estadual, celebridades e personalidades do mundo da música e da televisão. O traje exigido é de gala – fraque.
O custo da Festa, apresentada como uma mega produção hollywodiana e formatado ao estilo dos eventos norte-americanos para celebridades como o Oscar e o Grammy, não foi informado. Produtores ouvidos por Afropress, porém, estimam que um evento desse porte não fica por menos de R$ 2 milhões, ainda que os artistas não cobrem cachês pela presença.
Serra e Dilma
A ministra Dilma Roussef e o governador José Serra, os dois prováveis principais candidatos à Presidência da República em 2010, confirmaram presença. Além de Serra e Dilma, também estarão os ministros Juca Ferreira, da Cultura, Orlando Silva, dos Esportes, Edson Santos, da Igualdade Racial, e o governador do Rio, Sérgio Cabral.
Do mundo da música e da televisão estarão presentes os cantores Luiz Melodia, Zezé Motta, Elza Soares, Alcione, Paulo da Viola e Seu Jorge, além dos atores globais Taís Araújo, Camila Pitanga, Lázaro Ramos e Milton Gonçalves.
O autor de novelas, Manoel Carlos, será homenageado por ter escolhido a atriz Taís Araújo para viver a protagonista Helena de Viver a Vida, a novela da Globo. Taís é a primeira negra no papel de protagonista principal numa novela em horário nobre, e a TV Globo, a exemplo do que faz todos os anos, deverá dar chamada no Fantástico.
Da elite econômica, estarão presentes os presidentes da Fiesp, Paulo Skaf, também candidato ao Governo do Estado, o presidente do Bradesco Lázaro Brandão e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.
O organizador
Vicente, um ex-delegado de Polícia, nascido em Marília, interior de S. Paulo, tornou-se empresário de sucesso atuando não apenas no ramo de eventos, mas também na área educacional, onde conseguiu, no Governo FHC, autorização para a instalação da Faculdade Zumbi dos Palmares, a Unipalmares.
A Faculdade mantém os cursos de Direito, Administração, Tecnologia em Transportes, Pedagogia e Publicidade e Propaganda, e cobra de alunos, 90% por cento dos quais, negros, mensalidades de mercado.
Em entrevista ao Caderno Especial sobre Racismo da Folha de S. Paulo, de 2.008, Vicente disse que 70% dos custos são cobertos por empresas e bancos como o Bradesco. As empresas que, segundo ele, não contratam negros para sua diretoria ajudam a sustentar a escola.
“Sem patrocínio de empresas como o próprio Bradesco, o Itaú, o Real e o Safra, a Unipalmares já estaria falida. A mensalidade paga pelos alunos cobre 30% dos gastos; o patrocínio empresarial cobre os 70% restantes”, afirmou.
Como empresário tem presença ainda nos ramos da comunicação, com o Programa Negros em Foco, e Revista Afirmativa. Ainda como produtor de eventos, tornou-se proprietário da marca Feira Preta.
Negócios
A rapidez com que consegue apoios e patrocínios – de empresas que vão da Coca-Cola e Nestlê aos principais bancos do país – está, segundo pessoas que acompanham sua trajetória, na facilidade com que transita por Governos – do PSDB ao PT, de Lula a Serra -, sem se comprometer com nenhum. No momento integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, do Governo Lula.
“Com Vicente ser negro tornou-se uma marca, transformada em negócio. Vicente não tem ideologia, a não ser a ditada pelos negócios”, comentou um empresário negro, que pediu que seu nome fosse mantido em sigilo.
Afropress procurou o reitor para uma entrevista, onde pretendia fazer o seu perfil, incluindo sua passagem e carreira na Polícia, criação da Afrobrás e o sucesso nos negócios. Seus assessores ficaram de agendar, porém, não retornaram.
Ganhadores
O segredo do sucesso do Troféu, além do talento do reitor para reunir em espaço público, gente com interesses distintos – está no formato do Prêmio, que nunca é rígido. A cada ano são acrescentadas categorias (este ano serão dez), de acordo com o destaque na mídia de nomes que não precisam ser negros, apesar do nome do Troféu.
No ano passado, por exemplo, os ganhadores foram a medalhista Maurren Maggi, aos diretores do Bradesco, José Luis Bueno, Gabriel Jorge Ferreira, do Unibanco, e Fábio Barbosa, da poderosa Federação Brasileira dos Bancos (Febraban).
Os Bancos, que segundo Mapa da Diversidade da Febraban, praticam discriminação no mercado de trabalho e pagam a negros, salários 64,2% inferiores a de trabalhadores não negros, são os principais patrocinadores do Troféu.
Este ano, nas categorias Esportista Masculino e Feminino, por exemplo, os concorrentes são os jogadores Ronaldo Fenômeno, do Corinthians, que já se declarou branco em entrevista à Folha, em 2005, e Marta, considerada a melhor jogadora de futebol feminino do mundo, no momento atuando pelo Santos.

Da Redacao