Muito se tem dito sobre Donald Trump, ao longo de toda a sua vida, e principalmente agora, com essa surpreendente vitória. A figura sempre foi vista como um oportunista. Seu nome já dá uma pista: um dos significados da palavra “trump”, em inglês é “trunfo”, o “ás na manga” que permite ganhar a jogada. E o que serviu para a sua jogada eleitoral pode ser melhor entendido vendo-se o chamado “Gráfico do Elefante”, assim chamado porque suas curvas se assemelham à forma do paquiderme.

Esse gráfico mostra que os 20% ricos dos países avançados não se deram tão bem na globalização quanto as populações dos países emergentes e os 1% mais ricos. O pessoal da classe média americana, por exemplo, que está entre os 20% ricos em países avançados, não se sentiu beneficiada. Falar para eles, prometer o que eles queriam, dizer que os tempos em que se davam bem, iriam voltar, era o movimento certo.

Foi por aí que Trump, que vê a vida como um jogo cujo objetivo é se dar bem usando os meios que forem necessários, puxou o fio da meada, e se fez ver como aquele que poderia entregar o que desejavam. Ou seja: é um populista. Na medida em que não surjam outros interesses que lhe sirvam melhor para se dar bem, vai mover mundos e fundos, principalmente fundos, para atender sua clientela. Sob o ponto de vista econômico, há uma contradição entre suas promessas.

Cortar substancial e intempestivamente os impostos ao mesmo tempo em que investe para dar poder e renda ao seu eleitor preferencial, deverá criar um desequilíbrio fiscal e daí, como preveem alguns economistas, inflação. Uma hora a conta não fecha e surgem os problemas, história, aliás, corriqueira aqui na América do Sul, celeiro de populistas, como nós brasileiros muito bem sabemos. As demandas do eleitorado de Trump, no entanto, não se restringem à área econômica.

Durante o período do pós-guerra até o presente, assistimos à fase informalizadora do processo civilizador. Com isso, os direitos das minorias se tornaram relevantes, com ascensão das mulheres, dos negros, dos latinos e das minorias sexuais, entre outros temas, como a legalização do aborto, das drogas, e por aí vai. Essa onda de inclusão enfrenta uma reação que têm, de certa maneira, sido abafada, fornecendo todavia, combustível para o ressentimento da relativa perda de status econômico dos brancos da classe média americana devido à globalização.

Esse ressentimento atinge o seu ponto mais alto com a ameaça terrorista, aguçada pelo Estado Islâmico e similares, com o seu marketing do terror (no limite, a vitória de Trump é também uma vitória se não do Estado Islâmico, da sua agenda). E daí? Não se pode descartar que o oportunista, uma vez empoleirado, perceba que a jogada agora é bancar não o falcão, mas a pomba. Trump não tem apego a nada que não lhe sirva.

Ou seja: vamos ter que aguardar os seus atos para ver. Mas uma coisa não tem, como a proverbial pasta de dentes evocada por Dilma, volta: os brancos americanos de classe média foram ativados. Vão entrar no páreo para valer. Da mesma forma que o impeachment de Dilma cristalizou uma divisão na população brasileira (que vinha sendo semeada há anos pelo PT), a campanha e a vitória de Trump dividiram os americanos.

Com certeza o peso eleitoral da classe média branca, por razões demográficas – os latinos, assim como outros grupos étnicos, a cada ano ampliam sua participação na salada populacional do país – irá diminuir. Mas a divisão veio para ficar, pelo menos por um bom tempo. A dinâmica dessa radicalização é um fio desencapado, que poderá criar elos com populismos que ora se fortalecem pelo mundo, principalmente da direita, principalmente na Europa.

Tantas rodas girando de forma potente podem estar a nos dizer que estamos entrando em uma nova era, de confrontos acirrados, de difícil mediação. O mundo já se esqueceu do que aconteceu antes de 1939 e o seu terrível desfecho. Pode ser que as forças que regem a natureza humana, responsável pela sucessão daqueles acontecimentos, estejam novamente ativas e prontas a aderir de novo à cegueira, ao fanatismo e ao ódio.

É persistente a estirpe daqueles que não queriam descer das árvores. A esperança? Talvez reste no progresso da Ciência, que começará a fazer voos para Marte. 

Carlos Figueiredo