Como fundador do primeiro movimento indígena no Brasil, a UNIND – União das Nações Indígenas -em 1977, como indígena do Povo Terena do Pantanal sul-matogrossense e, ao mesmo tempo, estudante universitário, pude sentir de perto aquele olhar frio e marcante de diversos setores da sociedade nacional e, principalmente do Estado brasileiro, mal acostumado que eram e continuam sendo na condução das realidades indígenas vivas no nosso Brasil.
Naquele tempo e isso foi reacendido nas últimas semanas, proliferavam-se nos bastidores do Governo Federal, de um lado para o índio estudante o apelido de “índio aculturado”, e para o índio tribal, de que “havia muita terra prá pouco índio”. Formas imperiosas do conceito racista de encurralar o primeiro brasileiro numa armadilha engenhosa que não deixava alternativa entre um mundo e outro.
Mas naquele tempo, liderados por chefes como Mário Juruna e Celestino Xavante, jovens estudantes criaram a frase indefensável para o poder público, agente tutor de povos soberanos e seu espírito colonizador e preconceituoso: Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!
O movimento indígena estimulado por aliados dentro e fora do governo, na Folha de São Paulo, o Globo, o Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense e Jornal de Brasília, assim como na OAB de Mauricio Correa e Sepúlveda Pertence, na ABI de Barbosa Lima Sobrinho, na CNBB de dom Luciano Mendes, e em ativistas como Betinho, Darcy Ribeiro e o sindicalista Lula da Silva, e cantores e atores como Chico Buarque, Sonia Braga, Beth Carvalho…
Um dia, como Piloto Comercial da Funai, quando fazia exames médicos no Hospital da Aeronáutica de São Paulo, em 1981, fui acionado pelo representante de um partido político em formação, o PT. Tinha que viajar com o presidente da entidade, Lula, para uma reunião com Muhammar al Kadafi na Líbia, como componente importante da sociedade nacional, o Índio, e parte do projeto em formação de um partido da sociedade e da inclusão dos discriminados.
Assim num Jumbo da Aerolíneas Argentinas, pude viajar pela primeira e única vez, em primeira
classe. Lá estavam também o peão Jair Meneghelli e um dos únicos Deputados do PT, Airton Soares. Em Madri, numa escala para a Líbia, alojado no Hilton Hotel, enquanto tomava uísque, Lula que não conhecia direito, com lágrimas nos olhos afirmava que seu grande sonho era ter três minutos no horário nobre da TV Globo, para poder dizer aos brasileiros que o tempo da liberdade e da inclusão social chegaria para todos.
Esse tempo chegou, pelo menos parece que chegou… Após 20 anos de caminhada como uma persistente formiga, o poder foi tomado pelo sindicalista Lula e pelo PT.
Os Povos Indígenas, aliados de primeira hora mesmo não sendo da classe trabalhadora ou partidários, foram mantidos no mesmo curral da ditadura militar, do governo neoliberal esquecidos, abandonados por migalhas, sem direito a um Plano de Ação efetivo do
ponto de vista político, gerencial e financeiro.
Politicamente, o único representante político no Congresso Nacional como Deputado Federal, Mario Juruna foi eleito por Brizola, e mesmo na ditadura militar, graças a articulação de lideres indígenas como Megaron, Raoni, Melobô e Aritana, o então Ministro do Interior, Mário Andreazza, pela primeira vez na história, nomeou um indígena para a Chefia de Gabinete da Funai e outro como Diretor Geral do Parque Indígena do Xingu, quebrando vícios e dando mostras de que tudo iria mudar… Tempos depois, inclusive quando indigenistas e antropólogos assumiram a presidência da Funai, foram eles os primeiros a detonar essas conquistas.
Por isso, quando representantes dos dois setores se degladiam em público através da Imprensa, vimos quase com olhos marejados não de tristeza, mas de alegria, de que estamos no caminho certo, pois os aliados sinalizam com suas contradições, que nada mais tem a fazer, a não ser entregar o poder indigenista ao seu verdadeiro dono: o indígena.
Como isso não depende apenas da vontade indígena, mas da conscientização do sistema do Estado Brasileiro, certamente, as eleições que se aproximam servirão como escadas para que todos no Brasil busquem um novo pacto social e político consigo mesmo, onde as 230 sociedades indígenas não sejam parte do passado ou de uma tutela viciada no indigenismo colonizador e escravista…
Nada justifica essa cegueira do poder público a não ser a arrogância e a necessidade de anular
conquistas palmilhadas inclusive com a morte de líderes como Marçal Guarani, Hibes Wassú ou Ângelo Kretan, que exclui em nome dos bons costumes sociológicos, povos soberanos como os Tupiniquins e os Guarani e Kaiwá, que jazem sem terras ou os Terena, que com suas estratégias e comandos internos, conduziram o Exército brasileiro para a conquista de territórios como o Pantanal, diante da Guerra do Paraguai.
Por isso, nesses momentos fortifica-nos a lembrança guerreira da performance de Bibi Ferreira, na peça Gota d’agua:
” …Tudo está na natureza encadeado em movimento…
Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta…
Até agora eles estavam comandando meu destino e eu
fui…
fui recuando, recolhendo fúrias…
Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me
imaginam fraco…
Quando eles virem invertida a correnteza, quero ver
se eles resistem a surpresa…
e quero saber como que eles reagem a ressaca…”

Marcos Terena