Vinte de novembro é o Dia da Consciência Negra. Muita gente não sabe que essa data é uma homenagem à Zumbi, líder do quilombo dos Palmares, assassinado há 310 anos porque lutava por liberdade. O que muitos também não sabem, é que desde o dia 22 de julho deste ano, Mauá tem uma Coordenadoria de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial e Étnica, criada por meio da lei nº. 3.816, sancionada pelo prefeito Diniz Lopez.
Esses fatos me fazem lembrar dos dois trechos (citados acima) da música Paz Interior do grupo de hip-hop RZO, que tem em Negra Li uma de suas intérpretes – e, diga-se de passagem, um dos maiores expoentes em matéria de beleza da mulher negra brasileira.
Mas para que a eqüidade sugerida pela idéia se efetive, não basta uma folha de sulfite com algumas palavras impressos à tinta e a ponta de uma caneta desenhando a rubrica de uma assinatura. É preciso muito mais que isso.
É imprescindível estabelecer objetivos e esforçar-se para alcançá-los. O caminho é difícil, cheio de chicotes, correntes e capitães do mato. A sociedade ordena que a população negra continue renegada à 2º plano e não progrida.
As palavras da bandeira nacional(Ordem e Progresso) indicam como deveria ser a nação pentacampeã mundial de futebol, mas, ordem, às vésperas de mais uma copa, é exatamente o que não vemos, sobretudo no cenário político. Progresso não se vê no que diz respeito à igualdade entre as raças. Basta fazer uma reflexão sobre questões como o perfil das pessoas que exercem cargos de chefia, o padrão de beleza das revistas de moda, as etnias presentes nas propagandas de carros e família feliz, a cor dos médicos, dos advogados, dos professores universitários, dos alunos de escolas particulares e de faculdades, das pessoas que trabalham em caixas de bancos, lotéricas, lojas.
E não me venham com esse papo: “Ah, eu conheço um ou dois que são”. Nós não somos um ou dois nesse país com cerca de 160 milhões de habitantes, somos praticamente a metade. O relatório divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas) na última sexta-feira, dia 18, atesta minhas palavras. A entidade declarou que a democracia racial no Brasil é um “mito”. O resultado de uma pesquisa realizada pela organização apontou que 64,1% dos pobres são negros. Mostrou ainda, que o Brasil ocupa a posição nº. 73 no índice de desenvolvimento humano, mas, se dividido em dois países distintos, o Brasil Branco seria o 44º e o Brasil Negro 105º. Curiosamente, esse relatório foi publicado no mesmo dia em que picharam, pela 2º vez, com mensagens racistas a estátua em homenagem à Zumbi dos Palmares, mesmo sob vigilância policial, numa das avenidas mais movimentadas do Rio de Janeiro, a Presidente Vargas.
A lei Áurea (nº. 3.353, de 13 de maio de 1888), assinada pela princesa Isabel, não mudou muito as condições de vida dos ex-escravos. Os negros libertos continuaram vivendo em condições miseráveis, pois não tinham moradia, terra, alimentos e direito à educação. Os que conseguiam emprego trabalhavam, geralmente, em cargos de menor prestígio. O setor industrial deu preferência para os imigrantes europeus, num processo de extermínio da população negra, do qual também fez parte à guerra contra o Paraguai (1864-1870), quando os negros foram postos à frente da batalha e muitos morreram, reduzindo sua porcentagem na população da época de 45% para 15%.
A Lei do Ventre Livre (1871) e A Lei do Sexagenário (1885) deram origem aos primeiros órfãos e mendigos do país. Os filhos de escravos que nasciam livres eram separados dos pais, os escravos com mais de 60 anos de idade não tinham força para trabalhar e eram postos na rua. A lei Eusébio de Queirós (1850), aprovada sob pressão da Inglaterra, que proibiu o tráfico negreiro, ficou só no papel. Antes da aprovação o Brasil importou um número de escravos maior que a média para suprir a falta deles no futuro em decorrência da lei.
Quando o estoque acabou, voltou-se a importar, mas de maneira sutil, para que os ingleses não notassem. Daí surgiu à expressão “para inglês ver”, usada até hoje. Mas a pressão inglesa contra o tráfico não foi um ato misericordioso. A Inglaterra fez isso porque o tráfico prejudicava suas transações comercias. A verdade é que todas essas leis tiveram como objetivo diminuir os gastos dos senhores.
De fato, até mesmo dentro dos quilombos havia escravos. Os libertos possuíam escravos, o que pode ajudar a explicar a baixa auto-estima e a falta de conscientização de boa parte da população negra brasileira de hoje.
E, todos esses acontecimentos do passado têm seu reflexo na sociedade atual, só não vê quem não quer. Dessa forma, o dia 20 de novembro está longe de se tornar um dia de conscientização. Continuamos sendo “sutilmente” discriminados. A democracia racial aqui é para inglês ver.

Diones Soares