Afropress – Um ano após seu lançamento, você que fez parte do grupo que participou das reuniões que debateram o conceito da TV, sua finalidade,objetivos e compromissos, qual a avaliação que faz do projeto TV da Gente, do empresário José de Paula Neto, Netinho?
Osvaldo Faustino – Confesso que ainda não tenho uma definição precisa do rumo tomado pelo projeto. Entendi que a TV da Gente objetivava difundir quem somos, nossa história, nossa maneira de produzir arte e cultura, o talento dos nossos, nossa presença nas sociedades nacional e internacional.
Imaginei que se iria mostrar o que mundo contemporâneo pode e deve esperar daqueles que a diáspora africana espalhou pelo planeta afora. Que através dessa TV trabalharíamos a elevação da auto-estima de nossas gente, que as ajudaríamos a de identificar, a se orgulhar de sua origem de sua etnia.
Enfim, tudo aquilo que, em décadas de militância, tentamos fazer através de outros instrumentos de comunicação.
Hoje, sei que essa TV não é o que sonhei, porque nosso sonho é sempre muito maior do que é possível ser qualquer realização. Mas, sou uma pessoa de fé, e ainda imagino que seu criador, Netinho de Paula falou a verdade quando nos convidou a participar do projeto.
Acredito houve equívocos na implantação do projeto, mas que ele deve estar em busca de meios de realizar aquele que não era apenas “um sonho que se sonha só” pois “sonho que se sonha junto é realidade”.
Afropress – Fale um pouco da experiência da TV nos seus primeiros dias. Qual a expectativa que você e outros profissionais que participaram dessa fase, alimentavam?
Faustino – Foram momento de glória, de encantamento, de pura luz. Foi o mesmo sentimento de quando foi lançada a revista Raça Brasil. Algo como “agora, sim, temos o instrumento para deixa de lado as teorias e discursos,de partirmos para ação, para a prática”. Não adianta bradar que é preciso “por caras pretas no vídeo”. O importante é entender que não são apenas “caras pretas”, mas sim pessoas com a negritude na alma.
E, naquele momento, essa alma estava ali presente, desde as primeiras reuniões em que nos eram apresentadas as propostas. Eu participei do gripo que debatia os conceitos básicos para a implantação da TV. Depois, fui convidado para a primeira reunião das pessoas que iriam “fazer a TV da Gente”. Além de Netinho, éramos apenas cinco pessoas: uma delas não aceitou se envolver no projeto e outra, depois de inúmeras reuniões de trabalho, não foi aproveitada, até hoje não sei porquê. Aliás, dessas reunião de estruturação da TV, havia alguns profissionais, que estavam com Netinho desde as primeiras horas, e que também não foram chamados,
quando a TV finalmente entrou no ar, em 20 de novembro de 2005.
Desde o primeiro momento fomos alertados de que aquele era um projeto comercial, porém, “um projeto comercial diferenciado”, pautado na presença afro-brasileira. Sabíamos que não era fácil e que iríamos encarar as mesmas barras que enfrentadas pela revista Raça. Íamos ser chamados de racistas e sectários. Mas isso não nos abalou. Era um desafio que valia a pena. Sempre que nos propomos a fazer algo em favor de nosso povo, esse risco é eminente.
Mas, pior do que a crítica é a autocrítica exagerada. O medo de fazer.
O medo de mostrar. O medo de enfrentar as críticas. E naquele momento, aparentemente, não tínhamos nada disso. Viajamos na criação e na tentativa de instrumentalização para cumprirmos nossa missão.
Afropress – Em que momento e porque essas expectativas foram frustradas?
Faustino – Para mim, houve frustrações logo nos primeiros momentos. Parece que a TV da gente nasceu com medo. O medo de que a programação da TV ficasse chata e não atraísse público, fez se elaborar uma grade muito próxima do que há de pior na TV brasileira. Uma mesmice, com cara preta.
O medo de que a chamassem de racista fez com que se fugisse dos militantes do Movimento Negro (apesar de Netinho ter criado um Conselho Consultivo com a militância, sem voz e sem voto). Com isso se foi minando todo o conteúdo político da programação, depois o estético.
O interessante é que nem, ao menos, se aproveitou a nova TV para se produzir uma material de apoio para que as escolas pudessem aplicar a lei de nº 10.639, coisa a revista Raça Brasil, muito anterior à lei, sempre fez.
Quantos cartazes se elaborou em escolas, em comemoração ao dia de Consciência Negra, utilizando recortes da revista? Poderíamos ter produzido uma programação diferenciada, que se tonasse indispensável para o cumprimento dessa lei. Isso geraria vídeos e DVDs, que poderiam ser comercializados à parte, com conteúdos específicos.
Mas, ao contrário, como medo de parecermos uma TV educativa (o que, na opinião dos criadores da TV da Gente, atrapalharia seu justo interesse comercial), produzimos apenas uma programação pautada nas “fórmulas de sucesso” das TVs viciadas e interessadas em deseducar.
O velho guerreiro Chacrinha tinha razão ao dizer que “na televisão tudo se copia”, mas não é preciso copiar apenas o que há de pior. Parece que o que há de melhor é caro demais para ser copiado.
Afropress – Você produzia o programa feminino, mas também participou do infantil e até criou um personagem, o Tio Bá. Por que o programa foi retirado do ar? Quais as explicações que te deram?
Faustino – O convite para contar histórias para crianças não poderia ser mais honroso. Até hoje me emociono ao lembrar do que senti no dia em que soube do interesse dos criadores da TV em meu trabalho. Eu não queria, porém, participar do jornalismo, profissão em que estou há mais de 30 anos.
Entendia que poderia contribuir muito mais com outras linguagens de comunicação, quer pela dramaturgia, quer através de comunicação infantil.
E foi exatamente esse o convite: contar histórias para crianças. Paralelamente fui também convidado para criar pautas para o programa feminino. Esse trabalho teve momentos de alegria e outros nem tanto. A fórmula de programa feminino é viciada. Desde o início, se pensou numa
Ana Maria Braga negra. Até a diretora responsável pelo sucesso da apresentadora, em seus tempos de TV Record, foi contratada.
Mas, por outro lado, o trabalho no programa infantil para mim foi o paraíso. Eu estava tão feliz que cada vez em que encontrava Netinho de Paula, me emocionava e agradecia a oportunidade proporcionada por ele.
Como escrevo livros infantis, o convite não poderia ser melhor. Eu criava as histórias, desenvolvia a forma de apresentá-la e depois a contava no ar.
Porque foi retirado do ar? Nunca soube. Aliás, até muito recentemente, era reprisado diariamente. A explicação que me deram foi apenas que as gravações seriam suspensas por falta de verba de produção, mas que ele voltaria. Mas, hoje, acredito jamais voltará.
Afropress – Como era a relação da direção com os profissionais que mantinham a despeito da sua condição profissional – relações com diferentes organizações e entidades do Movimento Negro?
Faustino – Olha, o projeto era dirigido por pessoas que sempre admirei. Netinho de Paula e Conceição Lourenço são pessoas que sempre me proporcionaram orgulho vendo-as desenvolver suas atividades. A Conceição eu conheci editando a revista Raça, na qual eu escrevi desde o lançamento. E eu me sempre me orgulhei de escrever nessa revista. Quando Netinho a convidou para dirigir o projeto da TV e ela me chamou. Imaginei: “não poderia ter ninguém melhor para estar à frente desse novo projeto”.
Mas, durante os cinco meses, em que trabalhei na TV da Gente, concluí que a direção da emissora tem profunda alergia ao Movimento Negro.
Lembro de um dia, durante um reunião com o Conselho Consultivo da TV, que é formado por militantes do MN, eu me sentei no fundo da sala observando o debate e pensado o que dali poderia servir de pauta para o programa feminino ou para pensar história para o Tio Bá.
Mas meu ato resultou numa grande bronca: “aqui você é funcionário e não militante”. Humilhado refleti sobre o assunto e concluí que não poderia realizar nada de qualidade para ou sobre o povo negro brasileiro, sem se conhecer e respeitar o Movimento Negro.
E não falo desta ou daquela entidade. Falo da luta histórica, desde a quilombola e a abolicionista, passando pelos demais movimentos de inclusão de nossa gente na sociedade brasileira até os dias de hoje.
Para mim, se você utiliza um meio de comunicação, tendo um povo como referência, não pode ignorar e, muito menos, rejeitar os movimentos sócios-políticos-culturais desse povo.
Afropress – E hoje como está o projeto TV da Gente?
Faustino – Ah. Não sei, não. A grade de programação foi reduzida a quatro programas: o Encontro da Gente, é apresentado por Gleydes Xavier, Ney Gonçalves Dias e Kikinha Sorriso, irmão de Netinho; o Looping, com o Big Richard; o Mundo Urbano, com Marjorye Kohigashi, e Fala aí, com o ex-Br’oz André Marinho.
Soube que recentemente foi inaugurada uma programação em Salvador, na Bahia. Que algumas coisas seriam produzidas lá e outras aqui para ser veiculada lá.
Aqui, não sei se ha novidades, pois como muita gente não conseguia sintonizar o canal 24, como antes não conseguia também sintonizar o 50.
Afropress – Você acompanhou a mudança de canal do 50 para o 24?
Faustino – À distância. Mas, nessa mudança, aconteceu minha maior decepção, pois soube que por causa de um acordo com um consórcio de evangélicos que são donos do canal, ficou proibido fazer qualquer menção a religiões de matriz africana. Aqui vale lembrar o título do livro e do filme de nosso grande Joel Zito Araújo: é “A Negação do Brasil”.
Afropress – E o Conselho Geral da Programação que foi formado no início, ainda se mantém? Tem se reunido?
Faustino – Honestamente, não sei. Só sei o que ouço e ouço muitas informações controversas. Sei que o conselho só serviu para “enquadrar” o Movimento Negro. Se houvessem críticas, se diria, mas há um conselho formado pelo próprio movimento que analisa os programas. Mas um conselho sem qualquer poder de interferência. E assim alguém me conta ter visto e ouvido Ney Gonçalves Dias comentando as matreirices do personagem Foguinho, de Cobras e Lagartos, dizer “… esse negro safado do Lázaro Ramos!”. Não vi. Mas, se aconteceu, deveria ser tirado do ar imediatamente por burrice ao confundir ator personagem e receber voz de prisão por racismo, pelo uso da expressão.
Afropress – O que a população negra pode esperar de um Projeto que foi lançado em seu nome como instrumento para dar visibilidade à temática racial e étnica na mídia brasileira?
Faustino – No momento acredito que nada. Há a desculpa de falta de dinheiro para se produzir bons programas de TV. A gente sempre escutava que o dinheiro dos investidores de Angola, que representaria 25% do capital da TV, havia atrasado. Hoje acredito que o investimento angolano seria o único dinheiro usado na TV da Gente. E, pior, um dinheiro gasto sem planejamento, sem plantar nada de verdade, sem criar patrimônio, nem mesmo cultural. Tenho certeza de que os investidores serão cobrados em seu país e buscarão respostas e responsabilidades, aqui.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Faustino – Só posso dizer que lamento. Lamento muito. Foi uma paixão que morreu. Acho que é mesmo um processo irreversível. Uma oportunidade única.
Não acredito que outro projeto de televisão de valorização de nossa gente possa nascer nas próxima décadas. Talvez um programa aqui, outro ali, mas institucionalmente, não imagino ser possível.
Havia um feedback positivo diário da comunidade, pautas infindáveis, diariamente, às quais não se deu a menor importância. Faltou apoio das agências de publicidade, das empresas, das classes médias e empresarias negras, do poder público? Concordo. Faltou com tudo isso e muito mais, inclusive respeito a uma série de bons profissionais. E vale aqui uma autocrítica: talvez tenha faltado, também, mais profissionalismo da parte da gente e um comprometimento real daqueles que pensaram o projeto.
Não adianta apenas querer ser pioneiro. É preciso entender que por mais novidade que se queira implantar ela tem de ser alicerçada numa história de lutas, sobrevivência e conquistas de mais de cinco séculos.