Rio – Ignorando a existência do racismo no Brasil como fator de exclusão dos negros e indígenas – os mais pobres entre os pobres – a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio do seu Conselho Universitário, aprovou proposta de cotas sociais, reservando 20% das vagas para estudantes das redes municipal e estadual do Estado e da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec).
Segundo o Frei David Raimundo dos Santos (foto), diretor executivo da Rede Educafro – a maior rede de cursinhos pré-vestibulares para negros do país – a proposta defendida pelo reitor Aloisio Teixeira, “é uma aberração”. Ele disse que vai entrar com representação no Ministério Público Federal contra a medida, que deve entrar em vigor imediatamente.
“Por que os ricos de todo o Brasil podem entrar na UFRJ e os pobres, não? Trata-se de um atentado gravíssimo à Constituição”, afirmou o Frei, numa alusão ao mecanismo que permite a qualquer pessoa de maior renda do país prestar vestibular e restringe essa possibilidade apenas a estudantes cariocas de baixa renda.
Votação
A proposta do reitor Aloisio Teixeira foi aprovada por apenas 2 votos – 20 a 18 -. Os estudantes serão classificados pela nota do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). As demais vagas serão preenchidas pelo seguinte critério: 40% pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), também tendo por base a nota do Enem; 40% pelo vestibular, que na primeira fase levará a nota do Enem e na segunda, terá prova discursiva.
Os estudantes dos colégios federais, como o Militar e o Pedro II, e de Aplicação, incluindo o da própria UFRJ, estão excluídos do critério de cotas.
O ministro chefe da SEPPIR, Eloi Ferreira de Araújo, também demonstrou insatisfação com a decisão da UFRJ. “Esse percentual não tem base científica. A menos que haja 20% de pretos, pardos e pobres no estado”, afirmou.
O reitor, contudo, defendeu a proposta alegando que “não depende de nossas decisões acabar com o racismo ou com a desigualdade”. “Temos de ser responsáveis. Temos de saber como a universidade reagirá a medida”, afirmou. Afropress tentou falar com o reitor por meio do seu celular, porém, ele não retornou a ligação.
Na semana que vem o Conselho discutirá detalhes da ajuda financeira – incluindo a doação de um lap-top aos alunos da cota social.
Para o Frei David, porém, a proposta do reitor é uma aberração. Ele teme que o mau exemplo da UFRJ, contagie outras instituições, com a descaracterização da proposta de cotas raciais e do princípio de ações afirmativas, que já são adotadas por cerca de 130 universidades brasileiras. “Em várias universidades, os seus reitores se formaram na UFRJ. Seguem a cartilha da UFRJ. Temo que estejamos diante de um grande retrocesso”, concluiu.

Da Redacao