S. Paulo – O ato promovido pela União Geral dos Trabalhadores (UGT) em frente ao Consulado de Cuba, em S. Paulo, para protestar contra o desrespeito aos direitos humanos e a prisão de ativistas, na sua maioria negros, reuniu cerca de 300 pessoas – principalmente mulheres vestidas de branco – dos sindicatos filiados a Central. Debaixo de uma chuva fina, as mulheres e sindicalistas gritaram palavras de ordem em defesa do fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, de solidariedade ao povo cubano, porém, pedindo que sejam respeitados os direitos humanos na Ilha.
Na manifestação – que contou com um grupo de contras convocados pelo PC do B, Movimento dos Sem Terra, ativistas da CUT do ABC, Consulado de Cuba em S. Paulo e Uneafro, a entidade formada por dissidentes da Rede de Cursinhos Educafro – o presidente Ricardo Patah, disse que os trabalhadores brasileiros se unem aos que querem o fim do embargo econômico, considerado por ele, um crime contra a humanidade, porém, enfatizou que a solidariedade ao povo cubano significa hoje pedir a libertação dos presos de consciência.
Durante a manifestação militantes dos dois grupos – que se mantiveram separados por um cordão formado por policiais militares – chegaram a trocar empurrões. Um policial chegou a usar gás de pimenta para conter manifestantes do grupo mobilizado para impedir a manifestação.
Mulheres de branco
As mulheres sindicalistas se vestiram de branco em homenagem as mães e irmãs de presos políticos do regime, a maioria dos quais negros, como Orlando Zapata Tamayo – que morreu após 85 dias de greve de fome – e o jornalista Guilhermo Fariñas, que se mantém em greve de fome e corre risco de morte.
Durante o ato também foi divulgada a Nota da Secretaria Nacional da Diversidade da Central, em que o secretário Magno Lavigne lembra a perseguição do regime contra lideres do Movimento Afro-Cubano, como o professor Carlos Moore, que vive exilado no Brasil, e o médico Darci Ferrer, encarcerado no final do ano passado, fato que motivou, inclusive, carta pedindo sua libertação, do principal líder negro brasileiro vivo, o ex-senador da República, Abdias do Nascimento.
“Militantes e ativistas anti-racistas como o professor Carlos Moore, ex-colaborador de Malcon X, vive exilado no Brasil, acusado de subversão racial. Darci Ferrer, médico e ativista dos direitos civis e democráticos, ainda há pouco, foi preso quando participava de um ato pacífico em defesa desses direitos, sob acusações de ordem criminal”, afirma a Nota.
Subversão racial
“Embora esse crime – subversão racial – não exista na legislação cubana, vem sendo aplicado sistematicamente, sujeitando acusados a penas que variam de 10 a 15 anos de prisão. Uma Revolução que teve à frente figuras heróicas como Camilo Cienfuegos e Che, que inspirou tantas gerações de jovens no Brasil e no mundo sob o lema “hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”, não pode tratar com desprezo a vida e condenar à morte pessoas apenas porque pensam diferente”, conclui a Nota.
Ao final, Patah e dirigentes da UGT tentaram entregar documento expressando essas posições, porém, não foram recebidos pelo cônsul cubano, em S. Paulo.
Consulado mobiliza
O grupo dos contra à manifestação – liderado pelo vereador paulistano Jamil Murad (PC do B) – foi mobilizado pelo Consulado cubano em S. Paulo, que não quis receber os sindicalistas.
No dia anterior, ao tomar conhecimento da manifestação, a Representação diplomática disparou e-mails a militantes em que fazia a tradução do ato convocado pela UGT nos seguintes termos: “Atenção: na realidade, trata-se de um ato contra o povo cubano, suas instituições e sua revolução, pois o ato será de solidariedade com as “Damas de Branco”, que são pagas pelo Império, para derrotar o regime cubano atual que possui o apoio total da população cubana”. O comunicado é assinado por Georgina Németh.
A manifestação do Consulado foi recebida com estranheza pelos dirigentes sindicais, uma vez que, diplomatas não costumam se envolver com disputas do movimento social e sindical dos países nos quais servem.
Veja, na íntegra, a Nota divulgada pela Secretaria Nacional da Diversidade da UGT
TODA SOLIDARIEDADE AO POVO CUBANO, FIM DO EMBARGO ECONÔMICO! POR IGUALDADE, DEMOCRACIA E RESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS!
A Secretaria Nacional da Diversidade Humana da UGT vem a público manifestar a preocupação diante da situação dos Direitos Humanos em Cuba, que se agravou no último período com o encarceramento sem culpa formal de dissidentes – um dos quais – o operário negro, Orlando Zapata Tamayo – morto após 85 dias de greve de fome. No momento, o jornalista Guilhermo Fariñas, em greve desde o mês passado, encontra-se debilitado e correndo risco de morte.
O caso dos presos políticos em Cuba chama a atenção e provoca o clamor de todos os setores democráticos no mundo inteiro, ainda mais porque, não há contra eles culpa formal de quaisquer crimes, mas apenas o delito de opinião.
Ao mesmo tempo em que apontamos a intolerância, a insensibilidade de dirigentes cubanos em face dos direitos humanos e das liberdades democráticas, reiteramos a denúncia ao criminoso embargo econômico que segue sendo imposto pelos Estados Unidos há quase cinco décadas.
Trata-se de um verdadeiro atentado a Cuba e a soberania do povo cubano, que deve ser denunciado e rechaçado.
IGUALDADE, LÁ E CÁ!
Nunca é demais lembrar que Cuba, ao mesmo tempo em que trata seus dissidentes políticos com absoluta insensibilidade, também vem ignorando as desigualdades raciais cuja existência o próprio regime reconhece e perseguindo lideranças do Movimento Afro-cubano.
Militantes e ativistas anti-racistas como o professor Carlos Moore, ex-colaborador de Malcon X, vive exilado no Brasil, acusado de subversão racial. Darci Ferrer, médico e ativista dos direitos civis e democráticos, ainda há pouco, foi preso quando participava de um ato pacífico em defesa desses direitos, sob acusações de ordem criminal.
Segundo o ex-senador e principal líder negro brasileiro, Abdias Nascimento, em carta aos dirigentes cubanos e ao Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, “os fatos indicam que, em função de sua longa militância pelos direitos civis e humanos das populações marginalizadas em Cuba – na sua maioria de ascendência africana – as autoridades cubanas decidiram tentar calar esta voz que incomoda”. O fato de o julgarem como criminoso, encarcerando-o em um centro de detenção para criminosos comuns, continua Abdias, denota o descaso dessas autoridades para com as normas de direito internacionalmente reconhecidas.
Embora esse crime – subversão racial – não exista na legislação cubana, vem sendo aplicado sistematicamente, sujeitando acusados a penas que variam de 10 a 15 anos de prisão.
Uma Revolução que teve à frente figuras heróicas como Camilo Cienfuegos e Che, que inspirou tantas gerações de jovens no Brasil e no mundo sob o lema “hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”, não pode tratar com desprezo a vida e condenar à morte pessoas apenas porque pensam diferente.
Calar-se em face da violência e do desrespeito aos direitos e às liberdades democráticas, representa a negação das bandeiras de José Martí e de todos os Revolucionários que sabem que nenhuma Revolução é digna desse nome, sem preservar como princípio a Liberdade.
S. PAULO, 06 DE ABRIL DE 2010
MAGNO LAVIGNE
SECRETÁRIO NACIONAL DA DIVERSIDADE HUMANA DA UGT

Da Redacao