O que poderia ser um indicativo positivo da “democratização” do mercado ou da liberação das mulheres para ocupar um lugar socialmente mais valorizado na sociedade – o trabalho “reconhecido” ao invés do trabalho doméstico – sugere as verdadeiras restrições que negros e negras encontram nesta disputa.
O que comprova a desigualdade é observarmos que no mesmo período a evolução das taxas de desemprego foi positiva para todos os trabalhadores, mas por raça e sexo, os homens e mulheres negros sofreram dificuldades bem maiores. Enquanto para os homens brancos, entre 1995 e 2005 a taxa de desemprego apresentou crescimento de 4,9 para 6,3, para os negros a alteração foi de 5,7 para 8,1. Entre as mulheres, as brancas sofreram um aumento da taxa de desemprego de 6,7 para 10,7 e para as mulheres negras o aumento foi de 8,1 para 14,1.
Para os que venceram a disputa por um posto de trabalho na década estudada, houve alterações positivas entre as negros, em face da sua maior participação no mercado de trabalho no período e, provavelmente, pela aceitação ou imposição de remuneração mais baixa do que a das pessoas brancas. Observe-se que as medianas apresentadas são apenas dos 50% mais pobres.
Enquanto em 1995 os homens brancos recebiam R$ 715,00, em 2005 a mediana passou para R$ 632,00. Para os homens negros, esta alteração foi de R$ 402,00 para R$ 421,00. Entre as mulheres, as brancas apresentaram uma elevação de R$ 447,00 para R$ 474,00 e as mulheres negras a evolução foi de R$ 223,00 para R$ 316,00.
Antes que um sábio defensor da igualdade racial brasileira levante os velhos argumentos de que a remuneração menor dos negros deve-se à sua baixa qualificação para um mercado que hoje exige capacitação, estudo formal, etc. e tal. Peço que respondam por que os negros são os menos qualificados.
Mas, o que me motivou a escrever este comentário, na verdade, foi uma antiga pergunta que não quer calar: o que o movimento sindical organizado no Brasil tem feito pela luta para redução das desigualdades no mercado de trabalho, que reproduz tão evidentemente as desigualdades da sociedade?
Os sindicatos têm privilegiado cotas para negros nos cursos de qualificação e capacitação profissional? As Centrais Sindicais têm colocado a questão nas suas pautas de negociação das verbas consideráveis do FAT?
Este é, sem dúvida, um bom tema para o movimento sindical brasileiro.

Maria Adelina Braglia