Eram cantores, profundos conhecedores do imenso repertório da tradição, bem como do momento certo de entoar cada seqüencia de cânticos. Eram grandes atabaquistas, grandes dançarinas e dançarinos, talentosos artistas devotos, como os saudosos Caboclinho, Popó, Joquinha, Nilson de Ossãe, Seu Encarnação etc; da querida Reginão (onde andará?), Ebâme Vera, Lulu… e tantos outros.
Agora, parece que essa figuras só se encontram nas casas muito, muito tradicionais. Porque, nas outras, segundo eu soube, quando se quer tocar pros orixás, é preciso contratar músicos e cantores, muitas vezes tendo que pagar a tabela do Sindicato, hoje magistralmente presidido pela violoncelista Débora Cheyne – que só entrou aqui pra receber uma homenagem há muito devida.
Sindicalismos e puxa-saquismos à parte, o queremos dizer é que anda por aí, desde o ano passado, um tremendo CD de músicas rituais. Afro-brasileiras e afro-cubanas. Encaixadinhas, como a gente sempre sonhou. E que eu acabo de receber, de presente de Natal.
Chama-se “AGÔ! CANTOS SAGRADOS DO BRASIL E DE CUBA”. E é literalmente um disco de arrepiar. E de fazer a gente chorar de emoção e orgulho.
Nele, os tambores batá e os xequerés da percussão ritual afro-cubana deitam e rolam sobre a cama de cellos, violinos, palhetas e metais, pianos e vibrafones – sem perder o clima respeitoso, sem deixar de ser alegre. E as vozes dos alabês e apwóns passeiam bonito pela periferia dessa São Paulo cada vez mais surpreendente, vão a Santiago de Cuba, passam por Regla, vem até Miguel Couto, dão um pulo no Engenho Velho, voltam pra Coelho da Rocha e recolhem-se ao igbodú, de costas, encerrando magistralmente o xirê, o güemillere, o concerto sinfônico-vocal-percussivo.
Superprodução! Infinitamente distante daqueles “discos de macumba” de antigamente, que o Humberto Araújo e o Cláudio Jorge ainda insistem em comprar na rua Regente Feijó e no Mercadão de Madureira.
Tremendo presente de Natal! Obrigado, Carmo Lima! Obrigado Quinteto BP! Obrigado, Sapopemba! Obrigado, Tata Monalê! Obrigado, Ari Colares, Dino Barioni, Carlinhos Brown e Alê Siqueira!
Tremendo presente de Natal! Que, é claro, não vai estar em nenhuma loja de shopping. Mas que eu acho que pode ser adquirido através do e-mail [email protected]
Vamos lá? Quem não for, é mulher do padre (ou do pastor?) e come toda a porcaria (pop-rock?) do mundo.
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes