Mais do que um sinal de que recusa integrar o bloco do “amém” e reivindica um Movimento Negro e anti-racista independente do Estado e autônomo em relação aos Partidos, a ausência do Movimento Brasil Afirmativo – uma articulação de lideranças negras de S. Paulo, responsável pela Parada Negra, realizada em novembro passado – é uma denúncia.
Na plenária anterior de S. Paulo, lideranças do Movimento estiveram presentes, apresentaram documento como contribuição ao debate, fizeram parte da caravana de delegados que foi ao Rio, foram anunciados como integrando a Coordenação Nacional para, em seguida, serem excluídos. Sem qualquer aviso, consideração, ou explicação.
Explicações que, aliás, estão sendo pedidas desde o dia 26 de janeiro deste ano. Além das tergiversações de praxe, os dirigentes da Comissão Executiva do Congresso, eventualmente, acenam com um possível convite, como se fosse concebível que um grupo seleto de pessoas, que não receberam procuração nem delegação de ninguém, pudessem passar a decidir quem pode e quem não pode participar; em última análise: quem é ou não é negro; quem tem mais tempo de casa, e vai por aí.
Nesse meio tempo, tentam, em privado, acusar esta Afropress de pretender “melar” ou “desestabilizar” o Congresso, e coisas desse tipo, sem o menor nexo nem sentido, por duas boas razões: a Afropress não tem esse poder. Se o tivesse, não teria qualquer interesse em prejudicar o Congresso, como pode ser demonstrado, com um breve balanço em nosso banco de dados: nenhum outro veículo de comunicação deu mais notícias sobre o Congresso e espaço ao seus dirigentes.
A outra razão é que, embora sua linha editorial, tenha maior sintonia com as linhas de ação do Movimento Brasil Afirmativo, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Afropress é uma Agência de Notícias, focada na temática racial e étnica, criada no espírito do Plano de Comunicação, aprovado em Durban, e que definiu o uso das modernas tecnologias, entre as quais, a Internet, como “instrumento estratégico de combate ao racismo”. Faz jornalismo focado na temática étnico-racial, buscando respeitar os princípios da ética e da pluralidade e de sempre ouvir o outro lado. Zela, como um princípio, por sua independência editorial. Não, por outra razão, mesmos os nossos detratores, no plano das idéias, têm espaço.
Só não há espaço, para racistas assumidos e ou camuflados que, são por sinal, os que nos atacam, inclusive ameaçando a integridade física e da família dos seus jornalistas, fato sobejamente conhecido.
O Movimento Brasil Afirmativo é outra coisa. Trata-se de uma articulação política de lideranças negras e anti-racistas que age baseada nos princípios da independência, da autonomia em relação a partidos e a governos e busca uma agenda soberana e um programa capaz de reunir todos os setores anti-racistas da sociedade, para botar abaixo o edifício do racismo, em nosso país.
Em verdade, os nossos detratores estão nos acusando apenas por uma única razão: nossa independência editorial.
O recente “piti” público dado pelo coordenador do MNU, em S. Paulo, Reginaldo Bispo, por conta da matéria em que revelamos o orçamento estimado do Congresso e os seus potenciais financiadores – o Estado e as estatais -, bem como o intermediário para obtenção desses recursos,- o ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Luiz Soares Dulce – é emblemático.
Avessos à transparência, alguns dirigentes – como parece ser o caso de Bispo – revelam a postura autoritária que se esconde por trás dos discursos. Quem critica, vira imediatamente o inimigo a ser atacado, ou eliminado, sabe-se lá. O viés da luta política como uma conspiração, de triste memória, é imediatamente recuperado e assumido, sem nenhum subterfúgio.
A entrevista de Frei David a Afropress, comunicando que a Educafro, a organização da Igreja Católica, com maior capacidade de mobilização, pelo menos em S. Paulo, por outro lado, propõe uma reflexão, que precisa ser feita. Lembra Frei David que, a tentativa de promover uma unidade impossível entre diferentes tendências e posições, é um vício herdado da década de 70, quando o Movimento Negro, ressurgia, em plena ditadura, e que – diz Frei David com todas as letras – precisa ser superado. “Assim como os brancos estão em todos os partidos e tendências, e não necessariamente, debaixo do mesmo guarda-chuva, nós negros também devemos nos permitir esse direito”, afirma. Para acrescentar, anunciando o porque a Educafro ficará fora: “O respeito à diversidade é fundamental”.
Por tudo isso, é bom que os dirigentes do MNU, UNEGRO e CONEN – as articulações/organizações que estão transformando o Congresso em um “Congresso kombi” (a “kombi” dessas próprias organizações) – aprendam uma lição que já deveríamos ter aprendido, até pelo histórico de humilhações de séculos: só há diálogo entre iguais, que se respeitam.
Os brancos racistas não nos ouvem pelo próprio fato de, sendo racistas, nos considerarem menos e, portanto, que nada temos a dizer de importante. Entre nós, negros, para que o diálogo seja possível há duas pré-condições: primeiro, não pode haver, entre nós, quem se considere mais; nem menos; segundo:saber ouvir.
Se essas organizações querem realizar um Congresso Nacional dos Negros e Negras do Brasil, ainda há tempo. Mas, ele está rapidamente se esgotando, junto com a paciência de muita gente, que tem algo a contribuir e muito a dizer.
Se não, esse Congresso será apenas um encontro dessas organizações. E aí, só nos resta uma coisa: desejar boa sorte. Ah, e que nos informem das Resoluções.