O primeiro dos volumes a chegar ao Lote, pelas mãos do grande jurista e fraterno amigo Eloá Cruz, foi o livro “Enterrem as correntes: profetas e rebeldes na luta pela libertação dos escravos” (Rio, Record, 2007) do escritor norteamericano Adam Hochschild. O outro foi a “Autobiografia de um ‘africano ilustrado’: um estudo de caso: Olaudah Equiano (1745 – 1797)”, dissertação de mestrado de autoria de Mônica Valéria Silva de Queiroz Vargas, apresentada à UERJ em 2006 e prestes a, convenientemente adaptada, ser publicada em livro.
Ambas as obras narram a história de Equiano, destaque no enredo que sonhamos, ou enredo, ele mesmo, esse “africano ilustrado”.
Olaudah Equiano – cujo nome, em ibo, ecoa algo como “jóia, ouro” (ola) “sonante, sonoro” (uda) – nasceu, segundo seu relato, numa aldeia do sudeste da atual Nigéria, em 1745, filho de aristocratas. Com onze anos de idade teria sido capturado por traficantes de escravos, juntamente com uma irmã, e transportado para as Antilhas, onde tria sido comprado por um proprietário chamado Michael Pascal. Cidadão inglês, esse Pascal teria lhe dado o nome cristão de Gustavus Vassa, numa estranha e talvez irônica homenagem (principalmente pela forma latina) ao rei sueco Gustavo I, fundador da dinastia dos Vassa ou Wasa, mais de um século antes.
De sua base, na Inglaterra, para onde foi levado em 1757, e assumindo seu nome sueco, nosso herói luta, com seu patrão, na Guerra dos Sete Dias, e participa de aventuras rocambolescas. Na Grã Bretanha, onde se instruiu e se tornou cristão, sua honestidade e sua integridade de caráter, segundo a maioria de seus contemporâneos, lhe garantiram a amizade e a ajuda de muitos ingleses influentes.
Em 1763, Pascal o vende ao americano Robert King, a serviço do qual Gustavus Vassa trabalha como marinheiro, barbeiro, fabricante de vinhos, aprende aritmética e adquire completo domínio da fala e da escrita em língua inglesa. Assim, três anos depois, compra alforria, mas permanece trabalhando no mar ainda um bom tempo.
De posse de sua carta de alforria, Gustavus Vassa viaja até o oceano Ártico, no Canadá, como assistente de um cirurgião; até o mar Mediterrâneo como mordomo de um aristocrata; e permanece algum tempo entre os moskito, povo indígena da Nicarágua.
De volta à Inglaterra em 1787, o irrequieto africano alista-se nas fileiras do movimento abolicionista. E o faz chamando a atenção do célebre líder inglês Granville Sharp para o massacre de 130 escravos ocorrido a bordo de um navio, o Zong, na ocasião. Nesse mesmo ano, é nomeado comissário da expedição de libertos que irão, de retorno à África, estabelecer-se como elite em Serra Leoa, fundar a República e consolidar as bases da dominação britânica na região. Descobrindo fraudes no empreendimento, Gustavus Vassa as aponta, denunciando também as más condições dos navios destinados a transportar os retornados. Demitido como um simples “criador de casos”, o herói volta à Inglaterra. E é aí que o enredo se realiza.
Aproveitando-se do nome que já conseguira pela publicação, em artigos de jornal, de suas idéias, principalmente sobre a extinção da escravidão, Vassa, já agora reassumindo a jóia tilintante de seu nome ibo, Olaudah Equiano, acrescida do epíteto “O Africano”, publica, através de subscrições de amigos, o livro “The interesting narrative of Olaudah Equiano or Gustavus Vassa – the African – written by himself”, que obtém grande sucesso. Em meio à faina da luta abolicionista, como membro da associação “Filhos de África”, casa-se com Susannah Cullen, inglesa branca, com a qual tem dois filhos. E permanece brandindo suas armas contra o escravismo até o fim da vida, em 1797.
Ainda mais interessante nessa história é que Equiano teve um êmulo, com nome de sonoridade próxima à do seu – Ottobah Cugoano -, tido como de origem coromanti e capturado em Adjumako, na atual Gana, em 1770.
Com trajetória incrivelmente semelhante à do nosso herói, a ponto de nós, quando da escrita de nossa Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, acharmos tratar-se do mesmo personagem, Quobna Ottobah Cugoano (Kwabena, entre os povos akan, é nome dado ao menino nascido numa terça-feira) também foi abolicionista, trabalhou no Canadá, participou de preparativos de expedição de retornados a Serra Leoa e casou-se como uma inglesa branca. Além disso, também publicou um livro – cujo título em português ler-se-ia como “Pensamentos e sentimentos sobre o imoral e perverso trafico da escravidão e o comércio da espécie humana” -, no que, segundo alguns, poderia ter sido ajudado por Equiano, com o qual se relacionava.
Lançado no mesmo ano do livro de Equiano, chegando à 3ª. edição nesse mesmo ano de 1787, a obra, como observa Adam Hochschild, embora bastante radical na denúncia do escravismo e em suas propostas abolicionistas, apenas em cinco de suas 102 páginas aborda a história de vida de vida do autor.
Ainda segundo Hochschild, recentemente, alguns historiadores têm posto em dúvida o fato de Olaudah Equiano ter realmente nascido na África. Entendem esses analistas que a adoção dessa identidade foi uma espécie de “marketing” abolicionista, adotado por Gustavus Vassa para melhor vender seu livro e propagar as idéias que defendia. Entretanto, o escritor americano admite: “Seja como for, qualquer que seja o mistério de suas origens, a grandeza do livro de Equiano, de sua adolescência em diante, é inegavelmente autêntica e continua a ser uma das grande histórias de sobreviventes de sua época ou de qualquer outra”.
De posse desse atestado de autenticidade, finalizamos este texto recomendando a leitura do livro de Hochschild e, assim que publicado, do livro da brasileira Mônica Valéria Vargas sobre a saga de Olaudah Equiano. A partir dessa leitura, quem sabe um carnavalesco inteligente e bem formado como Milton Cunha não se anima a colocar a história dele na Avenida? Que dá um tremendo enredo, temos certeza que dá! Com um samba bonito, bem feito, caprichado, como aqueles épicos de antigamente.
O título original do artigo é “Africanos Ilustrados na Luta contra a Escravidão: um enredo da pesada”.
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes