Nestes últimos dias tenho sido acionado para construir posições contrárias à fusão das secretarias sociais do Governo Federal em uma só diante da grave crise econômica e da necessidade de enxugamento da paquidermica máquina ministerial.

Minha posição quanto a isso: QUERO MAIS QUE ACABEM. A existência da Seppir (igualdade racial), spm (mulheres) e sedh (direitos humanos), nada significam diante do imenso retrocesso que tivemos nessas áreas, notadamente sob o governo da primeira mulher presidente, Dilma Roussef.

Como ativista do Movimento Negro e militante dos Direitos Humanos, lutei muito pela criação destas secretarias, queríamos que fossem ministérios, pois entendiamos o imenso significado que teria o Estado assumir estes temas como questões essenciais a ponto de dar a elas o status ministerial, o mais alto nível de atenção presidencial.

Deu tudo errado. Essas secretarias foram criadas à fórceps, visando apenas agradar seus setores partidários e acomoda-los num setor do governo sem recursos e sem política. Estrategicamente nunca se discutiu para que serviriam estas secretarias, ainda mais num momento em que as agências de financiamento estavam se retirando do país por entenderem, equivocadamente, que a eleição de Lula significava a resolução de todos os nossos problemas sociais.

Grave erro. O governo resolveu se tornar concorrente dos movimentos sociais, assimilando à sua maneira nossas agendas, cooptando nossos melhores quadros e, com seu peso, e poder, fazendo desta concorrência algo extremamente desigual.

O diálogo foi se tornando complicado. Lidavamos, com o governo, quando reinvidicavamos, e o governo virava movimento social, quando respondia que não ia nos atender. Esquizofrenia total.

Imaginamos que a criação das secretarias sociais geraria dois efeitos práticos: 1) um melhor diálogo com a sociedade brasileira; 2) o fortalecimento das organizações sociais.

Nada disso aconteceu. Os vicios partidários contagiaram logo no início as relações políticas nas secretarias, ser do setorial, ser do partido, ou ser da instituição parceira do partido, ou o braço do partido naquele tema, era o passe-livre para acessar recursos, indicar quadros e poder desenvolver sua política institucional. Fora disso, nada germinava nas relações com as secretarias; isto tudo concomitante com uma lógica de concorrência das secretarias com os movimentos sociais. O diálogo com a sociedade fracassou porque, logo de cara se estabeleceu a lógica de clubes de amigos, onde nós falávamos para nós mesmos, sem construir aí o contraditório tão necessário à prática política.

Nossas agendas retrocederam, falar de direitos humanos abertamente tornou-se um risco, pois o conceito que direitos humanos é defesa de bandidos, entranhou-se tanto no imaginário do cidadão comum, que é necessária uma palestra para esclarece-lo quanto à sua visão equivocada.

As agendas feministas retrocederam graças a uma visão misógina trazida pelo movimento evangélico-pantecostal que foi devidamente incensado pelo governo em seu afan eleitoral.

O racismo está aí cada vez mais forte. Seja nas chacinas policiais que continuam exterminando jovens negros nas favelas e periferias e chega hoje às praias cariocas com grupos de jovens da zona sul se armando para espancar outros jovens negros e pobres que venham passear em suas praias.

A agenda LGBT naufragou. Mais uma vez graças à aliança político-religiosa estabelecida pelo governo.

Por fim, saímos do quadro de intolerância para chegar ao nível de violência religiosa, como hoje conceitua Rosiane Rodrigues, mais uma vez, graças à aliança feita por este governo com os setores mais conservadores de nossa sociedade.

Que sentido há em manter estas secretarias? Nenhum se elas não servem para nada, nem para gerar déficit, pois nunca tiveram recursos para tocar minimamente suas parcas ações. Não dá pra remar pra esquerda se quem opera o leme quer levar o barco à direita. E estamos vivendo exatamente este momento.

Lula capitulou quando lançou aquela carta aos setores financeiros prometendo que não ia mexer nos seus bolsos. Dilma capitula agora ao sinalizar aos setores conservadores que está rompendo com qualquer viés social que seu governo possa ter.

É complicado defender o indefensável. Lutemos para a recriação destes ministérios, e não secretarias, em outro momento histórico, com menos Oba Oba. Dessa vez não deu.

Este é o nosso desafio futuro. Reconstruir nossas agendas dentro de um sistema político-partidário que não se alterou e que favorece as eleições daqueles que contam com vastos recursos financeiros e não a eleição dos verdadeiros representantes do povo.

Aos movimentos sociais fica a tarefa da construção de novos paradigmas num momento em que o pensamento conservador torna-se hegemônico graças a existência de uma imprensa servil que se coloca ombro a ombro com estes setores.

O cenário futuro é tétrico, mas não é impossível a nós, com a força da nossa militância nao nos rendermos e ao final capitularmos como fizeram aqueles em quem nós confiamos.

Este é, pois, meu posicionamento quanto a estas questões. Torno-opúblico, via rede social, por entender que não é necessário falar disto com cada pessoa, ou organização que me busca, assim público, compartilho com todos meu pensamento.

Que esta análise sirva, outrossim, como contribuição ao debate, pois o embate torna-se desnecessário, dada a análise do contexto.

 

 

 

Marcio Alexandre Martins Gualberto