A instalação de uma mesa de coleta de assinaturas no Abaixo Assinado que pretende reunir um milhão de assinaturas, na Praça Ramos, Centro de S. Paulo, na última segunda-feira dia 11/09, com a distribuição do Manifesto “Movimento Brasil Afirmativo – Por um Brasil sem discriminação e desigualdade” é, portanto, um marco a ser saudado por todos os homens e mulheres que lutam por Liberdade, Justiça, Igualdade e Democracia no país.
Não que o Movimento Sindical não tenha avançado nos últimos anos em relação ao entendimento de que o racismo e a discriminação racial são elementos estruturantes da desigualdade social. Avançou sim, e é visível que há uma maior sensibilidade ao tema.
A verdade é que, de uma visão histórica distorcida, que compreendia o mundo do trabalho apenas a partir da implantação do trabalho assalariado no início do século passado, aos dias de hoje, caminhamos e muito.
Não faz muito tempo, quem comparecesse a uma assembléia de qualquer sindicato no Brasil pela primeira vez, teria a nítida impressão de que os primeiros trabalhadores foram os operários oriundos das grandes levas migratórias que constituíram a base da política de branqueamento adotada pelos primeiros governos da República. Não é por um acaso que a maioria dos primeiros líderes sindicais tem sobrenomes que revelam sua origem estrangeira.
É como se a população negra não tivesse por 350 anos trabalhado de sol a sol – da extração do pau Brasil ao ciclo do café, passando pelo ciclo do ouro e do açúcar -, para construir toda a base da estrutura econômica do país.
Fruto do avanço da luta contra o racismo e por igualdade racial, nos últimos anos, o Movimento Sindical, passou a ser mais receptivo ao tema, muito embora, as resistências persistam. A CUT e a Força Sindical, as duas principais Centrais, hoje têm departamentos e organismos internos voltados ao enfrentamento e a superação da desigualdade.
A criação do Inspir, em 1.995, já é fruto de um processo em que o movimento sindical se abre ao debate, passando a compreender ser impossível lutar contra a desigualdade social, sem enfrentar os pilares que a sustentam: a discriminação racial e de gênero, que expõe negros e mulheres às piores condições de remuneração e acesso às posições de destaque na hierarquia das organizações do mercado de trabalho.
Empregados negros ganham menos que os brancos – até 50% menos – dependendo da região do Brasil; Há mais desemprego entre os negros do que entre os brancos nas várias regiões metropolitanas; negros têm 2,2 anos a menos de escolaridade média do que os brancos, desde 1.929; a indígena é 70% negra, embora os negros representem 45,6% da população. Dos 22 milhões de brasileiros que, segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicas (IPEA) vivem abaixo da linha de pobreza, 70% são negros; entre os 53 milhões de pobres do país, 63% são negros.
No caso das mulheres negras a situação é ainda pior: tem maior desemprego e menor renda que os homens negros. E para ambos – homens e mulheres negros – a expectativa de vida é, em média, seis anos menor que para os brancos.
O enfrentamento e a superação dessa desigualdade requer a ação organizada de todos os setores anti-racistas da sociedade – negros e não negros – que sabem ser impossível construir uma Democracia no Brasil, enquanto negros e negras continuarem sendo tratados como párias, sempre à margem, engrossando as estatísticas da violência policial, sempre como alvos preferenciais da iniqüidade, da injustiça e de humilhações, ocupando os piores indicadores sociais.
O Movimento Brasil Afirmativo – cuja idéia foi lançada e apoiada por esta Afropress desde o início – e a quem se somam as Centrais Sindicais para sair as ruas em defesa da igualdade nasceu exatamente para ser o espaço de unidade de todas as forças que querem deixar o blá blá blá entediante e querem Ação, Atitude, Transformação.
De uma certa forma é como se todos estivéssemos anunciando um novo momento da luta contra o racismo e pela igualdade, como bem previa a companheira Maria Isabel da Silva, a Bel, da CUT, ao afirmar que o Movimento pode alterar a correlação de forças, na medida em que a luta deixe de ser travada apenas nos gabinetes para ganhar às ruas.
É como se todos passássemos a dizer: Ok, conhecemos os números, todos os indicadores. Mas, não agüentamos mais apenas seminários, e oficinas e debates que se repetem, sem nada propor, sem apontar caminhos. Conhecemos o diagnóstico, agora queremos atitudes para erradicar o racismo e a discriminação: doenças que nos mantém no atraso e faz com que o Brasil tenha perdido o hexa no futebol, mas se mantenha no topo como super-campeão em desigualdade.