Desde a primeira reunião, em casa do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrada, que sua presença se tornara um incômodo e um embaraço. Mas ele viera trazido pelo Dr. Álvares Maciel, vestia-se humilde mas decentemente, era altivo porém respeitoso, suas idéias tinham alguma coerência, e era um dos amigos fluminenses do alferes Xavier. O fato, porém, de ser um negro, embora dizendo-se livre e dono de alguns haveres, fazia dele um estranho naquela assembléia de bem nascidos.
– Temos que ter mais cautela nos nossos convites, Aires. Afinal, este é um grêmio seleto e não um calundu… – cochichou Paula Freire no ouvido de Aires.
– Concordo inteiramente, Freire. E acho que alguns de nossos confrades não têm muita clareza da nossa proposta. – redargüiu Aires, chegando à narina esquerda o lenço de alcobaça empoado de rapé, enquanto tapava o conduto direito, para inalar melhor.
– Nesse andar, a proclamação terá que ter uma versão em caçanje.
– Ou bunda, Excelência. Aliás, bunda sempre me pareceu mais apropriado.
O negro percebe ser o tema da conversa. Mas mantém-se firme, esperando que lhe dirijam a palavra. Tem os argumentos organizados na mente. Principalmente a condenação total e irrestrita do trabalho escravo.
A escravidão corrompe o escravo e o senhor. – ele pensa.
Paula Freire era sobrinho do Conde de Bobadela e comandante do regimento de Dragões; o Dr. Maciel, que acabara de se formar em Coimbra, era seu cunhado; Aires Gomes era juiz; Alvarenga Peixoto, Cláudio e Vidal Barbosa viviam de rendas, nos bolsos e nos punhos, pois eram simplesmente poetas; Oliveira Lopes, Abreu Vieira e Toledo Piza eram militares de patente alta; Rolim, assim como Toledo e Melo era padre… Então, o que fazia aquele negro ali senão causar incômodo e mal-estar?
Chamava-se Dos Santos. Francisco Domingo Vieira dos Santos. Tinha 35 anos e nascera na senzala da fazenda Vieira do português João Vieira dos Santos, ex-coronel do exército de Dona Maria I, na freguesia de Irajá, província do Rio de Janeiro. Por nascer a 4 de outubro, ganhou o nome do santo do dia, Francisco. Por ser domingo, dia santificado, acrescentou-se o “Domingo”, assim mesmo, no singular ; e após, o sobrenome de seu dono: Vieira dos Santos.
Tanto seu pai quanto sua mãe eram escravos crioulos, nascidos no Brasil. E o avô paterno, segundo se dizia, tinha sido um grande na corte de Agadjá, rei em Abomé, na Costa dos Escravos.
O reino de Daomé, com sede no planalto de Abomé, crescera e florescera mais de 100 anos antes, fundado por uma família de nobres vinda do litoral, do poderoso reino de Alladá. Expulsa por questões de sucessão, e por pressão dos mercadores holandeses, aos quais se opunha, a família lá se estabeleceu. Com a morte do líder, seu filho mais velho toma o poder e conquista territórios vizinhos, numa expansão continuada por seus sucessores. No inicio destes Setecentos, o reino, firmememente estruturado, consolida sua hegemonia exatamente pelas mãos de Agadjá que, inclusive, toma Alladá para seu povo, em uma guerra expansionista também continuada pelos herdeiros de seu poder.
Mas a reação não tarda a chegar. E ela vem de Oyó, poderoso reino iorubano, reduto de reis santos e guerreiros, que submete e avassala Abomé. Mas Oyó, que mais tarde será também dominada, está em luta com os fulânis do norte. E é nesse cenário de morte e destruição, com milhares de prisioneiros, de ambos os lados, sendo vendidos como escravos, que os pais de Domingo, não se sabe se no mesmo tumbeiro, mas certamente depois de uma viagem de pesadelo, acabam por chegar a Irajá.
Reproduzido, com autorização do autor, de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br

Nei Lopes