O Prof. Kabengele Munanga no ensaio “Origem e História do Quilombo na África” publicado na Revista USP (n.18, 1995/96) comenta que:
“(..) O quilombo é seguramente uma palavra originária dos povos de língua bantu (Kilombo, aportuguesado: quilombo). Sua presença e seu significado no Brasil tem a ver com alguns ramos desses povos bantu cujos membros foram trazidos e escravizados nesta terra. Trata-se dos grupos lundu, ovibundo, mbundu, kongo, imbagala, etc. cujos territórios se dividem entre Angola-Zaire (..)” .
Eis algumas referências sobre o nicho quilombola em Santa Eudóxia, atualmente distrito de São Carlos (SP):
1 ) Hercule Florence (1804-1879), segundo desenhista da expedição do Barão de Langsdorff (1774-1852, Cônsul da Rússia), em “Diário de Uma Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas (1825-1829)” registrou:
“(..) Passamos pela embocadura do Rio Quilombo e, pouco abaixo, pela ilha e cachoeira do mesmo nome. Ali se haviam antigamente refugiado muitos negros, pois quilombo é palavra que designa asilo onde eles se reúnem nas matas. Foram descobertos por negociantes que chegavam a Porto Feliz, armaram, por espírito de ganancia, uma expedição com a qual atacaram aqueles infelizes, aprisionando mais de cento e vinte. Amontoados em canoas, voltaram os mal-aventurados aos pontos em que sofrem o cativeiro. Foi-nos o fato contado pelo guia (..)”.
2) Francisco de Almeida e Lacerda (1750-1798) em “Diário de Viagem Pelas Capitanias do Pará, Rio Negro, Mato-Grosso, Cuiabá e São Paulo Nos Anos de 1780 a 1790”, ao passar pela região assinalou que:
“(..) Nestes campos que já se vão povoando com fazendas de gado, há negros fugidos que extraem ouro, porque se têm achado sinais disso, o que confirma que os montes sem dúvida têm o mesmo metal (..) “.
3) Em “Viagem Mineralógica na Província de São Paulo” José Bonifácio (1673-1838) escreveu:
“(..) Ouvi a uma pessoa verdadeira, que os pastores do Major Carlos de Arruda Botelho cuja fazenda é encostada ao Monte Araraquara, têm algumas vezes achado em diversos pontos de sua extensão, folhetos de ouro de 10 a 12 onças. Igualmente ouvi, que há muito ouro e diamantes nos rios Jacaré-Pipira e Jacaré-Guaçu (..)”.
4) Em documento datado de abril de 1804 e transcrito em “História de Piracicaba” (1943), de Mário Neme, lê-se:
“(..) O Ilmo e Exmo Sr General [Antonio Jose da Franca e Horta] houve por bem encarregar ao sargento-mor Carlos Bartholomeu de Arruda Botelho de atacar um quilombo de negros fugitivos, e lhe deu ordem para conduzir consigo a gente que lhe fosse necessaria, o que participo a Vmcê para que não só o não embarace, mas antes lhes preste todo o auxilio que puder para tão interessante diligencia (..)” .
5) Em “Da Fuga ao Suicídio – Aspectos da Rebeldia dos Escravos no Brasil” (1952), José Goulart registrou que:
“(..) Na Vila de Itu, crê-se que no ano de 1777, tomou-se conhecimento de um grande quilombo que, como outro anterior, também se formara de negros fugidos aos senhores das Minas Gerais (..) O Juiz ordinário, Vicente da Costa Tacques Góis mandou que o capitão de Ordenança José Dias de Almeida fosse atacar os sobreditos quilombos que já constavam de dois . Após a prisão levada a acabo, verifica-se que os negros eram em grande parte de sessenta anos de idade, para cima, sendo o maior número de aproximadamente trinta anos, pagãos, nascidos naqueles quilombos, que por antigos já não sabem que eram os senhores …’ Os negros foram, posteriormente, vendidos em praça e o produto distribuído com o pessoal que gastava com suas fazendas nas empresas de avanço contra os quilombos (..)”.
Eis outra hipótese de trabalho: segundo “Documentos Interessantes (v.12, pp.86)” em registro de 06/06/1723, o frei-mestre Fructuoso da Conceição e o sertanista Sebastião Sotil, teriam empreendido a procura do dourado metal na “Serra de Araraquara”. Sesmaria do Ouro e Córrego Rico seriam topônimos que “registraram” este episódio.
Seriam os quilombolas remanescentes …. sexagenários desta empresa ?.
Em suma, há registros como os acima destacados e a tradição oral que evocam a existência de um nicho quilombola em área do atual Distrito de Santa Eudóxia, São Carlos (SP).
Trata-se de página ainda a ser conferida com o necessário rigor documental e pesquisa de campo para identificação científica de indícios. E, caso se confirme, trata-se potencialmente de um dos mais significativos nichos quilombolas (ainda no Período Colonial) em solo paulista.

Marco Antonio Leite Brandão