Um contra-senso, pois trata-se de uma entidade com 23 anos de existência e que atua nas 3 bases do tripé universitário (ensino-pesquisa-extensão), mas que hoje é vista como uma ameaça ou um corpo estranho e inconveniente a ser expelido.
No espaço chamado pela Reitoria da USP de “barracolândia”, mas que insistimos em chamar de espaço de luta pela democracia, nosso “Quilombo” desenvolve projetos de ensino e extensão universitária, incluindo Cursinho Pré-Vestibular e de Idiomas voltados à comunidade de baixa-renda, assim como pesquisas étnico-raciais muitas vezes ignoradas ou ‘maqueadas’ pela academia, como estudos de Acesso e Permanência.
Fazemos alusão à nossa raiz quilombola, pois resistimos à manutenção do status quo existente na USP e lutamos para mudar a sociedade na qual estamos inseridos, assim como nossos irmãos o faziam no Brasil pré-abolição.
Hoje na USP, por exemplo, o número de ingressantes negros na USP gira em torno de 12% do total (enquanto na sociedade essa raça representa 50% da população) e não se sabe o número de estudantes negros e nem de mulheres nos cursos de pós-graduação e nem tampouco a classe social destes alunos. E lhes perguntamos:
Por que estes dados não existem?
Eles não deveriam ser gerados e utilizados para embasar políticas públicas de acesso à universidade?
É do interesse da USP sabê-los, divulgá-los e utilizá-los?
O “Senhor de Engenho” no comando ‘daquela região paulista’, por indicação do ex-Governador de São Paulo José Serra, é um velho conhecido dos movimentos sociais, ganhou projeção no episódio em que chamou a polícia para invadir a Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, para prender os manifestantes que estavam ocupando, simbolicamente, o espaço durante a Jornada Nacional de Lutas pela Educação, em Agosto de 2007.
Em reunião prévia, ficou acordada a desocupação do prédio às 17:00 horas do dia seguinte, mas por volta das 2:00 horas da madrugada, a Tropa de Choque da PM adentrou calorosamente o local, cena esta que voltou a se repetir em Junho de 2008, desta vez no Butantã, só que nesta 2ª ocasião a PM ainda trouxe consigo tiros de borracha, bombas de gás, repressão e muita vergonha para distribuição gratuita à toda comunidade.
Na época, o tal “Senhor” ensaiava sua campanha para Reitor sendo Diretor da Faculdade de Direito, agora, Reitor eleito, ou melhor, indicado, para 4 anos de mandato, tem poderes (quase) absolutos, conferidos pelo regimento (quase) ditatorial da USP e tem feito muito (mal) uso deles, vejamos alguns exemplos:
1º- Pôs fim, sem dialogar, à isonomia salarial entre funcionários e professores e cortou o salário de quem se opôs ao fato, construindo com o SINTUSP em 2010, uma greve ampla e legítima;
2º- Está processando 24 estudantes da USP com base no Decreto 52.906 / 72, instituído sob a égide do AI-5 (redigido pelo ex-Reitor da USP Gama e Silva), que prevê a pena de ELIMINAÇÃO à aquele que “praticar ato atentatório à moral e aos bons costumes”; “afixar cartazes fora dos locais a eles destinados”; “promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, racial ou religioso”; além de outras razões tão pífias quanto as citadas acima;
3º- Demitiu 270 funcionários na virada do ano de 2011 sem comunicar nem mesmo os diretores das unidades de ensino, debilitando a capacidade operacional da universidade, sobrecarregando os que não foram demitidos e deixando a todos indignados e perplexos;
4º- Promulgou a construção de uma tal Nova ECA (Escola de Comunicação e Artes) no local onde se situam barracões de entidades que desenvolvem atividades políticas, culturais e de extensão e a partir disso começou a, deliberadamente, assediar os barracões para que estes fossem desocupados, pensando que desta forma acabaria com a resistência e oposição destas, incluindo o Sindicato dos Trabalhadores da USP, Centros Acadêmicos e diversos Núcleos de Cultura e Pesquisa, como o de Consciência Negra.
O fato é que as demolições começaram, mas o projeto da Nova ECA nem existe e ninguém sabe para onde vão as entidades localizadas nos barracões. O que sabe de longa data, é que o “Senhor” pensa que tudo pode e que os “Quilombos” sempre resistem, avançando rumo à conquista plena de seus direitos!
Mas o mais interessante de toda essa história é que com a evolução da sociedade brasileira e com o avanço do capitalismo sobre as massas, no nosso “Quilombo” não tem só negros, tem descendentes de negros, brancos, ameríndios e orientais, todos conscientes do seu papel na sociedade e cientes de que são sujeitos e não objetos da história, e digo mais, estamos convictos de que nenhum “Senhor” tem o direito de ditar as regras do jogo, pois conhecemos as suas ‘jogadas’ dos “Senhores”, jogamos em conjunto com outros “Quilombos”, temos diversas cartas na mão e quiçá, na manga.

Engº. Leandro Salvático