Por recomendação do seu advogado e em respeito às cláusulas contratuais constantes do acordo extrajudicial com o Carrefour ele não fala nem do acordo nem do episódio – em que, tomado por suspeito do roubo do seu próprio carro, um EcoSport, foi barbaramente espancado por seguranças no dia 09 de agosto do ano passado – enquanto a mulher, uma irmã, o cunhado e um filho faziam compras.
Na sua casa, no Jardim Conceição, em Osasco, Januário passou um dia comum, com a mulher e os filhos Samuel, de 5 anos, Esther, de 3, e a filha do primeiro casamento, Jamile, com 19 anos, que ele trouxe para morar com a família no mês passado, quando passou um mês de férias, em Salvador. Do primeiro casamento, tem ainda Bruce Alesi, já adolescente com 17 anos.
O nome é uma homenagem a Bruce Lee, o ator e mestre das artes marciais norte-americano de origem chinesa, de quem era fã.
“Só o fato de estar lutando para melhorar o país onde vivemos, eu me sinto honrado, abençoado por Deus, de cabeça erguida e com a minha auto-estima de pé”, afirmou a Afropress.
Quem é Januário
O baiano que se tornou um símbolo da luta contra o racismo no Brasil no ano passado, nasceu no bairro de Pirajá, em Salvador. Seus pais, Maurino Santana e Josefa Alves Santana, já mortos, criaram os seis filhos – quatro dos quais vivos – com muita dificuldade. Seu Maurino, era “marroeiro”, trabalhava numa pedreira e a mãe cuidava da casa.
Em 1.993, Januário – o filho mais novo dos vivos – decidiu tentar a vida em S. Paulo. Ficou pouco mais de quatro anos, porque não “agüentava de saudade de casa”, conta.
Em 1.998, tomou uma decisão. “Meu pai, agora estou indo prá ficar” comunicou. Em S. Paulo, segundo conta, passou fome, antes de conhecer a segunda mulher, Maria dos Remédios, paraibana de Souza, com quem vive há oito anos.
“Me chamavam de bolacheiro porque andava com bolachas nos bolsos. Andei muito de pé. Trabalhei como ajudante de obras. Quando a fome apertava era com as bolachas que me socorria”, acrescenta.
A vida começou a mudar, depois que conseguiu ser o quarto colocado disputando entre seiscentos concorrentes uma vaga para os quadros da Universidade de S. Paulo (USP), onde trabalha como vigilante, desde o final dos anos 90.
Januário já teve na família outra situação de violência, quando viu um irmão – Manoel – sumir nas ruas para nunca mais aparecer. “Meu irmão sofria de distúrbios mentais e as vezes desaparecia nas ruas. Em 1.994 sumiu e não apareceu mais. O que soubemos é que tinha sido morto pela Polícia, confundido com ladrão. Seu corpo nunca apareceu”, conta, sem esconder a emoção.
Mesmo sem poder falar do episódio, Januário comenta que não guarda mágoas. “Não tenho raiva no meu coração”, finalizou.
Um dia para não esquecer
O dia 21 de março de 1.960 é um dia para não ser esquecido. Na cidade de Sharpevile, província de Gauteng, nos arredores de Johannesburgo, na África do Sul, um protesto convocado pelo Congresso Pan-Africano (PAC) contra a Lei do Passe, que obrigava os negros a usarem uma caderneta que determinava onde podiam ir, reunia cerca de 5 mil pessoas.
Marchavam pacificamente, entoando cantos e palavras de ordem, quando a polícia do regime do apartheid abriu fogo. Rajadas de metralhadora deixaram um rastro de sangue com 69 pessoas mortas e centenas de feridos, entre homens, mulheres e crianças.
Após essa data a opinião pública mundial voltou-se contra em peso contra o apartheid e no dia 21 de Novembro de 1.969, a ONU criou o Dia Internacional de Luta contra a Discriminação Racial que é lembrado e celebrado em todo o mundo para homenagear as vítimas.