Ou seja, de um lado, o percentual populacional dos que historicamente mantém os seus privilégios: donos de empresas, industriais, políticos, profissionais prestigiados, artistas da indústria cultural entre outros.
Do outro lado, por trás da cortina de fumaça, o conjunto dos que são postos de lado em uma perspectiva sócio-econômica, em suma os que são minimizados em um espectro cultural dominante: a população negra em sua maioria, os imigrantes oriundos do nordeste brasileiro, todos esses que são tornados a grande massa explorada de trabalhadores e também no imenso exército de reserva de produção do sistema capitalista, os excluídos das esferas formais de emprego.
São Paulo é um organismo que em seu interior pulsam micro sistemas e contradições não passíveis de serem assimiladas pela esfera dominante. Vale citar o crime organizado que, em última análise, é um reflexo da desigualdade sustentada sistematicamente.
Todavia, existem outras contradições que empregam o enfrentamento em outros campos de atuação, como as culturas tradicionais que resistem e se fortalecem inesperadamente em um ambiente de acentuado apelo à mercantilização de todo o existente, nesse processo de acelerada globalização que tenta nivelar toda a diferença torná-la assimilável e homogeneizada à visão de mundo dominante.
O Terreiro de tradição Congo-Angola, que fala entre as inúmeras línguas transplantadas do continente africano, a kikongo, mantida e conservada no Nzo Tumbansi, localizado em Itapecerica da Serra, região metropolitana sul da megalópole paulista é um dos exemplos de grupos que resistem e se refazem em um ambiente muitas vezes hostil como uma selva, mas uma selva de flora artificial e cruel fauna humana.
Nesse espaço, a visão de mundo de raiz bantu questiona, dialoga, com um modo de ser secularizado de uma metrópole que não conhece em suas bases formais o respeito sagrado à sua biodiversidade é o caso de seus rios estéreis, irremediavelmente poluídos, fluxos patogênicos e fétidos.
Dentro dessas dinâmicas dessacralizadas, que se estabelecem nos espaços urbanos, também o tempo sofre modificações perceptivas, tudo parece se acelerar, a velocidade do efêmero se acentua, no entanto, se aquieta, assume outra feição nos espaços dos terreiros onde o tempo é sempre reencontro, com o passado, com os mais velhos e com os ancestrais. Nos terreiros o tempo necessariamente retorna a uma dimensão mítica onde ele, o tempo, também se torna divindade.
Porém, os Terreiros de Candomblé na modernidade e, sobretudo, nas dimensões paulistas acabam por sofrer modificações em seus códigos. Pois filhos e filhas de santo estão também mergulhados (as) em processos sociais da própria cidade, nem todos poderão ter a disponibilidade de se iniciarem como deseja o Nki Nsi, alguns terão o tempo de iniciação abreviado devido a pressão de compromissos externos, sobretudo pelo mundo do trabalho.
Outros terão que adiar iniciação ou obrigação devido ao mesmo motivo. Outros ainda só poderão estar presentes no terreiro em datas de feriado nacional ou no período de férias. Isso fez com que alguns códigos dos terreiros se flexibilizassem para abrigar os seus filhos(as), contudo, sem perder sua natureza tradicional.
Esse é um dos desafios que o Nzo (Casa) Tumbansi (Pedaço de Terra, língua kikongo), Comunidade Tradicional de Terreiro de Candomblé de Matriz Africana Bantu enfrenta junto a outras comunidades de terreiro: manter suas tradições dentro de uma perspectiva consumista da modernidade urbana, sua autonomia diante dos processos formais de desenvolvimento urbano e, mais que tudo, manter sua identidade frente os bombardeamentos midiáticos que distorcem milhares de mentes e dos quais nossos filhos e filhas às vezes não estão imunes.
O título original do artigo é “Um Terreiro de Candomblé Congo-Angola na Grande Selva de Pedra.

Walmir Damasceno -Taata Kwa Nkisi Katuvanjesi