S. Paulo – O ex-secretário da Justiça de S. Paulo, Hédio Silva Jr., disse que o caso da violência praticada por seguranças do Carrefour de Osasco, contra o funcionário da USP, Januário Alves Santana, suspeito de roubar o próprio carro – um EcoSport – “é uma agressão infame, racista, que revela o despreparo dos agentes de segurança envolvidos e a necessidade de que o comércio e as empresas em geral tenham programas permanentes de treinamento de todo o seu pessoal”.
Januário se recupera em casa de uma cirurgia a que foi submetido na última quinta-feira (27/08) por causa de uma fratura da face, conseqüência da sessão de espancamentos que sofreu numa salinha do hipermercado, no dia 07 de agosto.
“Esse caso expõe de maneira nua e crua a persistência do racismo no Brasil e lembra muito um episódio havido recentemente nos EUA, com um professor negro acusado de tentar furtar a própria casa”, lembrou.
Segundo Hédio, a diferença é que nos Estados Unidos, o caso chegou à Presidência da República, merecendo, inclusive, manifestações do próprio Presidente Barack Obama. “No Brasil, não fosse a Afropress, o caso seria tratado somente como mais um”, acrescentou.
Marginalidade e delinqüência
Para o ex-Secretário da Justiça, o sistema penal brasileiro reproduz estereótipos, pré-julga e condena negros. “As expressões “crime de colarinho branco” e “fulano não tinha cara de bandido, sicrano não tinha jeito de bandido” atestam o quanto a representação do negro no imaginário social ainda está vinculada à delinqüência, à marginalidade. Muitas vezes o sistema penal acaba refletindo esse estereótipo e pré-condenando sobretudo a juventude negra pelo fato de ser negra”, afirmou.
Ele também destacou os esforços das Polícias Civil e Militar de S. Paulo, no sentido de enfrentar o tema do racismo na corporação, citando a dissertação de mestrado defendida pelo Major da Polícia Militar Edno Ribeiro dos Santos sobre o tema, porém, frisou que há a necessidade de “investimentos consistentes no treinamento de policiais para que estes não reflitam em sua atuação o preconceito aprendido socialmente”.
“É lamentável o fato de que maus policiais tenham dificuldades para assimilar os valores que devem orientar a atuação dos órgãos de segurança pública numa sociedade democrática.
Hédio destacou a cobertura de Afropress no caso. “O engajamento da Afropress foi fundamental para chamar a atenção da mídia e da sociedade, incluindo o próprio Movimento Negro, para que seja dada uma resposta não apenas jurídica mas também política. A Afropress foi responsável pela mobilização política que está havendo, que é o mínimo que o Movimento Negro pode fazer neste caso como em qualquer outro que envolva discriminação seja racial ou de qualquer outro tipo”, concluiu.

Da Redacao