Aos poucos o local foi ganhando cores, bandeiras, faixas e novos sons. Uma enorme tenda foi montada bem ao lado da estátua de José Bonifácio de Andrade e Silva, chamado de o Patriarca da Independência. Na tenda, representantes de vários movimentos sociais e entidades de luta por direitos humanos expunham jornais, livros e artigos sobre os temas “Genocídio da Juventude Negra”, “Violência Racial”, “Cotas em Universidades”, “Reforma Agrária”, “Moradia”, “Fim da Faxina Étnica”, “Cursinhos Comunitários” entre tantos.
Entre 12h e 14h, ao mesmo tempo que os organizadores argumentavam com a policiais da Guarda Municipal sobre a importância daquele do evento, o público que estava em horário de almoço começou a se aproximar do pequeno tablado montado no centro da praça.
Um funcionário de banco chegou próximo e perguntou, equivocadamente: “que show vai rolar?”
O Centro da Capital é frio e afasta as pessoas. Atividades como esta, alteram a noção de obviedade. “Que povo é esse que vai falar de política em plena tarde de um dia útil?”. Frases como esta surgiam estampadas no semblante de quem passava.
Os grupos ativistas revezaram-se ao microfone e davam seus recados de indignação e denúncia. Afinal, o que significa(ou) a data de 13 de Maio de 1888 (2010)? Que Abolição é essa que é ensinada nas escolas?
E como diz o panfleto como o nome da Aula Pública: Por que motivos temos “Mais um Maio sem Abolição”?
“A consciência dos homens daqui é o medo dos homens de lá”, diz o verso da canção cantada por um dos artistas convidados, que embalou o pessoal ao som de Regaee e MPB.
Passavam das três da tarde: “Trem sujo da Leopoldina, correndo, correndo, parece dizer tem gente com fome, tem gente com fome…” recitou o senhor negro de cabelos grisalhos. Alguém chega próximo, o abraça e o apresenta: “Gente, aqui está o nosso querido Liberto Trindade, filho do poeta Solano Trindade!” Muitos aplausos. Naquele singelo minuto, muitas histórias se misturaram no encontro de gerações.
“A negrada de 78, não podia se reunir assim. Era tempo de ditadura militar! Mas a teimosia fez nascer o Movimento Negro Unificado, e a gente lutava e continua lutando, agora unidos aos mais jovens”. A voz experiente era de Miltão Barbosa, líder do MNU.
Com fotos e cartazes contando a histórias de seus filhos, netos, sobrinhos, os familiares de vítimas do Genocídio Negro, assassinados pelo polícia e grupos de extermínio, participaram do ato, fazendo de sua dor, consciência. Fazendo de seu luto, a sua luta. Tornando essa luta, coletiva, pelo desarquivamento dos processos dos crimes de Maio de 2006 e pela Federalização prevista na Constituição, dos referidos crimes. Dos quase 500 jovens mortos naquela ocasião, mais de 80% são negros.
Presentes no ato, os familiares de Eduardo Luís Pinheiro dos Santos e Alexandre Santos, dois jovens motoboys negros, mortos por policiais militares em São Paulo sabem que nada diminuirá suas dores. A todos nós fica o compromisso de cobrar uma resposta ao ofício protocolado com o Governador de São Paulo, Alberto Goldman, pedindo explicações pela onda de crimes raciais cometidos por policiais.
Poesia, Poesia, Poesia de Sérgio Vaz e seus convidados dos Saraus, da literatura do povo, foi assim que aquela tarde de outono com sol de inverno deu lugar à noite de clima agradável. Clima mesclado de sentimentos distintos. Encatamento com a dança afro, choro com o depoimento das Mães de Maio, vibração com as palavras de ordem. “Se hoje estou aqui, eu à Dandara, eu devo à Zumbi”.
E muitos oradores traziam ao microfone um pouco da sua luta. Representantes do Movimento Sem Terra, do Sujeito Coletivo, do Circulo Palmarino, da UNEGRO, do Núcleo de Consciência Negra da USP, da UNEafro, do Fórum das Famílias de Desaparecidos Políticos, da Conlutas, de Partidos Políticos presentes como PSTU, PT, PSOL e PCdoB.
“Vejo essa praça e me recordo dos anos 50 e 60, quando os jovens reuniam-se aqui para tratar de política e expor uns aos outros seus sonhos e seu idealismo”. Assim disse Plínio Arruda, ex-deputado federal constituinte e pré-candidato à Presidência da República. “Eu continuo com esse idealismo e espero que vocês não deixem nunca de sonhar com um país socialista”.
Momento alto do ato, houve o rebatismo da Praça, que para os movimentos agora chama-se “Praça Matriarca Dandara”, quando o som de atabaques cativou o público para colocarem uma bandeira com as cores da unidade africana e uma placa de papelão no pescoço da estátua do Patriarca.
Uma senhora que passava, perguntou: “Por que isso? Matriarca Dandara?”.
É melhor que cada pessoa tenha sua resposta. Enfim, o que é o Patriarcalismo? Quem foi Dandara?
“Muitas são as formas de se explicar o novo nome dessa praça”, disse uma representante dos movimentos.
Por volta de 18:15h, depois de mais poesia e dança, o primeiro convidado da Aula Pública tomou a palavra. Edy Rock, do grupo Racionais MC´s. “Negro drama, entre o sucesso e a lama, dinheiro, problemas, inveja, luxo, fama. Negro drama, cabelo crespo e a pele escura, a ferida, a chaga, a procura da cura. Negro drama, tenta ver e não vê nada, a não ser uma estrela, longe meio ofuscada…” cantou a conhecida música de Rap e solidarizou-se com os movimentos.
E a Aula continuou com as palavras entusiasmadas da professora Regina Lúcia, do MNU, que invocou o nome de dezenas de lutadores negros e lutadoras negras, ao som de “presente” a cada nome chamado! “Essa luta é de todos, de todo o Brasil, dos negros e dos brancos! Disse emocionada.”
O Juiz Marcus Orione Gonçalves, que é professor de Direito na USP, foi o terceiro convidado da Aula. “Se vocês seguirem por aquela rua ali na esquina, há pouco mais de duzentos metros, vocês verão a faculdade que eu leciono. Infelizmente, lá é um outro país e os estudantes de lá são todos branquinhos. Aquele espaço de poder terá que ser tomado por nós, através das cotas”. E encerrou a participação com um abraço em Liberto Trindade.
“Nós precisamos ouvir o que dizem os estudantes negros que entraram nas universidades por cotas. Nas palavras deles, nós encontramos a verdadeira avaliação das ações afirmativas”. Assim expressou-se o professor Bas´ilele Malomalo, nascido no Congo e radicado no Brasil há 20 anos. Ele, que tem mestrado pela Unesp com tema ‘diáspora africana’, citou trechos da audiência sobre cotas ocorrida no STF em Março.
Com o ato político cultural preparado por mais de 30 entidades e movimentos populares, o dia 13 de Maio ganhou novo significado. Além de ser o dia de denúncia contra o racismo, é também um dia de luta, um dia de protesto, um dia de mobilização! “Em breve nos vemos novamente, na Praça Matriarca Dandara, local onde os passos apressados ouvem a Denúncia!” Veja mais sobre a atividade clicando aqui http://www.uneafrobrasil.org/home_ato13demaio2010.asp

Cleyton Wenceslau Borges