Hipácia era uma filósofa de ascendência grega, chefe da escola neoplatônica, louvada por sua inteligência e beleza, a primeira matemática do sexo feminino registrada pela História, que viveu em Alexandria entre os séculos 4 e 5 A.D., época em que a cidade, a exemplo do seu farol, um ponto de luz da antiguidade.

Basta dizer que lá, Aristarco de Samos, há quase 2.300 anos, propôs o sistema heliocêntrico, copiado por Copérnico 1.700 anos depois (a história de como Aristarco chegou a essa conclusão, sem ter sequer uma luneta, é fantástica, mas expô-la aqui nos desviaria demasiado da questão central deste artigo) –, estava sendo  tomada por  uma seita de fanáticos religiosos, os cristãos. 

Açulados por São Cirilo, que depois tornou-se o Patriarca de Alexandria, hordas de energúmenos (do grego endemoninhado, daí fanático) perseguiam os filósofos alexandrinos e terminaram assassinando Hipácia, arrancando a sua carne dos ossos com cascas de ostras. Sua morte é considerada o marco do fim da antiguidade clássica. 

Para ela o epigramista Paladas de Alexandria escreveu versos que atravessaram esses milênios, por retratarem uma situação recorrente, que aflige a espécie humana provavelmente desde quando nossos antepassados que decidiram descer das árvores encontraram resistência, até os dias de hoje. 

Diz o epigrama, na tradução do grande José Paulo Paes: “Acaso estamos mortos e só aparentamos/Estar vivos, nós gregos caídos em desgraça,/Que imaginamos a vida semelhante a um sonho,/Ou estamos vivos e foi a vida que morreu?” 

A estirpe daqueles que não queriam descer das árvores é persistente. Ouvir as hordas dos energúmenos de agora repetirem, mesmo depois de desmentidos pelo Supremo, “Não vai ter golpe/Não vai ter golpe/Não vai ter golpe” desperta em nós o terror de estarmos novamente ameaçados pela irracionalidade bestial do fanatismo. Mais do que a comprovada inépcia da presidenta, é essa a ameaça que nos aterroriza.

 

Carlos Figueiredo