Essa forte presença africana fez com que a Bahia se tornasse o berço da cultura negra no Brasil, e uma das principais regiões do mundo de preservação e promoção da cultura africana. A influência cultural dos negros da Bahia é tão forte que quase todas as manifestações afro-culturais do Brasil são sub-originárias de lá. Por exemplo, temos o samba, a copeira, o candomblé, etc. A Bahia, em vários aspectos da sua história e cultura, teve o povo negro como seu principal coadjuvante. Inclusive nas múltiplas rebeliões populares que lá ocorreram. Ainda hoje, a Bahia é considerada a “terra da negritude”.O lugar onde a musicalidade, as artes, a dança, a comida, as vestimentas, os adereços, a fala, a concepção de tempo, e tudo aquilo que se liga a maneira de ser do seu povo, é influenciado pela forte e marcante presença negra.
O encanto pela “terra da negritude” é tão grande que muitos africanos e afro-diaspóricos vão a Bahia para aprenderem sobre cultura negra que nem existe mais na África. Ou, devido as circunstâncias, nem em outras partes da diáspora africana se conservou. A Bahia, sem sombra de dúvidas, é um dos principais focos de resistência e preservação da cultua original e/ou tradicional africana. Merecendo, assim, por parte do bloco afro ilê ayê, num carnaval passado, a denominação de “nação africana”. Assim, as roupas do ilê ayê trazia a seguinte frase: Uma Nação Africana Chamada Bahia. E foi refletindo sobre esta afirmativa que surgiu – me a vontade de escrever este artigo.
Pois bem, é indiscutível essa presença marcante da cultura negro-africana na Bahia dos tempos atuais. Ainda hoje, Salvador, capital deste estado, é uma cidade de maioria absoluta negra. Tendo a maior concentração populacional de negros (as) fora da África., estimada em 82 % de afro-descendentes. Inclusive, Salvador, pela sua forte influência religiosa, foi, e ainda é, considerada a “Roma Negra” ou “Meca Negra” da diáspora africana. Sendo considerada a cidade de todos os ritmos e encantos.
Contudo, todo esse encanto pela “terra da negritude” se acaba quando substituímos o olhar histórico-cultural pelo olhar crítico político-econômico.Olhando sob esta óptica, das condições político-econômica dos negros, veremos que a Bahia não pode ser considerada uma “nação” (africana) em seu sentido lato, ou seja, amplo. A histórica exclusão político-econômico dos negros na Bahia, e sua conseqüente e contínua degradação social, faz com a “terra da negritude” se torne um pesadelo para o próprio povo negro. Uma terra, que devida à concentração de poder político-econômico nas mãos dos brancos, se assemelha mais a uma “nação africana” vivenciada pelo terror racista do apartheid. Onde as condições de moradia, o acesso a educação e a saúde, a violência urbana, o desemprego, o analfabetismo, o índice de mortalidade infantil, e tantos outros indicadores referentes às condições sociais, são tão desiguais entre brancos e negros, que a expectativa de vida dos negros, numa região onde eles são maioria, são semelhantes a dos países do continente africano.
Ainda, como conseqüência da exclusão negra das esferas de poder político-econômico, há na Bahia uma raça negra oprimida intelectualmente, pois a opressão mental feita pelos brancos sufocam o surgimento de qualquer mentalidade, ou tomada de consciência revolucionária da negritude. A usurpação da cultura, como exemplo, por aqueles que majoritariamente estão no poder, só permite a comunidade negra local ter acesso as migalhas dadas pelos algozes do povo negro. Assim, o status quo permanece o mesmo entre brancos e negros, sendo que estes últimos permanecem na base de sustentação da sociedade.Sendo assim, para que a Bahia venha se tornar uma verdadeira “nação africana”, onde a presença negra seja marcante em todos os seus aspectos, deve-se, necessariamente, ter uma maior participação negra nas esferas de poder político-econômico deste estado, proporcional ao seu contingente na população.
Ou seja, para que a Bahia venha a se tornar uma “nação africana”, uma verdadeira “terra da negritude”, é necessário que 82 % das esferas de poder (executivo, legislativo e judiciário) estejam ocupados pelos representantes do povo negro. Que 82% do poder político-econômico dessa região esteja concentrado, e repartido, entre os 82 % da população negra. Que os meios de informação e comunicação estejam, legitimamente, sob a guarda dessa parcela da população. E que as instituições sociais (escolas, igrejas, universidades, etc.) sejam enegrecidas, proporcionalmente, para o bem da população local.Que, enfim, todas as áreas da vida humana sejam representadas, quando não apropriadas, proporcionalmente pelos negros e negras. É trilhando por esses caminhos, ao meu ver, que legitimaremos a Bahia como “terra da negritude”. É trançando e concretizando esses objetivos que, enfim, poderemos, no futuro, tratar a Bahia como uma verdadeira “nação africana”. Somente quando todos os aspectos da vida social, inclusive o político-econômico, estiverem preenchidos de negritude, ou africanidade, é que poderemos afirmar que existe “Uma Nação Africana Chamada Bahia”.
Então, qualquer projeto político que venha viabilizar a melhoria do povo negro da Bahia deve ter em vista a concretizam desses objetivos. Até porque a verdadeira democracia se constitui com a concretização da democrática representativa. Ou seja, os diversos segmentos sociais representados proporcionalmente nas esferas de poder. Neste caso, os negros (as) ocupando 82 % dos espaços das esferas de poder político-econômico da Bahia.
Ainda, é necessário que nós, negros e negras, compreendamos que os brancos da Bahia não querem isso. Afinal, Salvador é capital mais desigual sócio-economicamente do país.Onde os indicadores e índices sócio-econômico revelam que existe um racismo escancarado e brutal. Sendo os verdadeiros beneficiados disso a elite branca dessa região. Por isso, um novo projeto político para o povo negro deve ter em vista, a curto prazo, a viabilidade da autonomia política-econômica da nossa comunidade, para que nós possamos ter a liberdade de concretizar o nosso ideais de sociedade justa, igual e fraterna apartir das nossas experiências de vida. É necessário acabar com essa ilusória noção de sociedade negra. É necessário que nós negros e negras comecemos a pensar em assumir o poder político do nosso estado, para que possamos gerenciar os recursos econômicos-financeiros e suprirmos as necessidades do povo negro.

José Raimundo dos Santos Silva