Nós sempre trabalhamos com a informação, visando uma mudança de comportamento. Este sempre foi o pano de fundo das intervenções óra de movimentos sociais, óra de ações governamentais, para a superação de alguma dificuldade ou, no caso específico, minimização e superação do racismo na sociedade. Visamos a conscientização do individuo e do grupo social, preocupados com a qualidade e quantidade das informações que estamos transmitindo, e atentos ao feedback instantâneo que nos é apresentado pelo público.
Para transmitir tais conhecimentos, por exemplo sobre cultura e história da população negra no Brasil, ou informações acerca das tecnologias desenvolvidas pelas sociedades africanas que influenciaram o mundo, entre muitos outros temas, utilizamos diversas metodologias de trabalho, a citar palestras, simpósios, congressos, encontros com mesas temáticas e grupos de trabalho, oficinas, e grupos de estudo. Desta maneira, entendemos que a  transmissão de grande volume de importantes informações (conteúdos ou conhecimento) garante em grande parte um engajamento político das pessoas agraciadas. Estou certo?
E isso de fato ocorre? O publico alvo destas ações de conscientização e mobilização ou formação política, assumem este comportamento de engajamento político? Qual é a magnitude da eficácia desta abordagem, pensando em algo concreto como a mudança de comportamento?
Fala-se muito em mobilização da juventude negra, conscientização e mobilização, ou em formação política e de agentes de cidadania, na perspectiva de mudança de comportamentos e tomada de cosnciência. Jovens antes alienados e sem perspectiva de vida, vitimados pelo racismo e outras ideologias de dominação, depois de um trabalho de conscientização tornam-se criticos, se posicionando de forma coerênte frente à atitudes discriminatórias e preocnceituosas, e participativos em atividades de superação destas mazelas sociais.
Mas este trabalho de mobilização é extremamente dificultoso porque na abordagem das pessoas que queremos atingir, encontramos muita resistência, desconfiança, medo, o que dificulta a transmissão das informações para a promoção da mudança de comportamento e tomada de consciência (processo acima discutido).
Tenho dúvidas sobre a eficácia desta abordagem de trabalho adotada. Esta minha dúvida é justamente minha motivação para escrever este texto.
Penso que a preocupação com a informação é acertada, assim como o é a preocupação com a quantidade de informações, nestas atividades de militância social. Sem dúvida! Mas penso que não deve ser estas as únicas preocupações. Acredito que temos que nos atentar à maneira como estas informações estão sendo processadas e codificadas em cada indivíduo, ou seja, temos que nos preocupar não apenas com as informações, mas com o padrão de pensamento ou a “engenharia cognitiva” dos indivíduos que estamos trabalhando, que queremos atingir e “transformar”, de forma que estes estabeleçam uma relação sadia com as informações que estão acumulando.
Mais do que isso, que haja “significação” destas informações, de modo que elas sejam fundidas nos sentidos que norteiam as motivações e ações destas pessoas. Este processo, acredito eu, provocaria uma mudança de comportamento uma vez que as pessoas utilizariam as informações por nós transmitidas para interpretarem o mundo que os rodeia. “Poeticamente” poderia dizer que o mundo já não seria o mesmo aos olhos destas pessoas, devido a mudança na percepção do mesmo.
Quando falo neste processo de incorporação das informações transmitidas nos sentidos pessoais, estou entendendo ‘sentido’ como uma Gestalt ou estrutura onde de forma “enovelada” estão emoções, sentimentos, lembranças de experiências vividas, expectativas, informações somáticas, dogmas, conceitos e preconceitos, e qualquer outro fator relevante para a constituição de uma entidade espiritual. Não é um debate sobre religião, inclusive penso que religião não tem nada a ver com este debate.
É importante dizer que estou entendendo o espiritual como algo transcendente, e independente de dogmas e experiências religiosas. Desta forma, se você se emociona, logo você é uma entidade espiritualizada, uma vez que a emoção é um fator espiritual, assim como os sentimentos e outros que se relacionam com o que é entendido como estado de espírito (criticas são muito bem vindas (risos)).
Então, o que estou dizendo é que é necessário sensibilizar as pessoas no processo de formação política e articulação social. É necessário sensibilizar, e principalmente promovar uma atividade que faça sentido, ou que levem as pessoas a atribuirem sentido às informações transmitidas. Quando penso em alguns segmentos de movimentos sociais, como o Hip-Hop, a Capoeira, o Frevo, os grupos culturais, enfim, acredito que estas linguagens trabalham neste nível assimilação de conhecimento que julgo importante. São movimentos que tem como público individuos à margem da condição de cidadão, e que conseguem o engajamento destas pessoas com grande eficácia.
As pessoas se emocionam, e atribuem significado às atividades realizadas, por exemplo, no movimento Hip-Hop. Pessoas que nunca tiveram voz, e que foram sempre invisíveis, tornam-se visiveis e com voz ativa no movimento, com possibilidade se expressar através da dança, do graffiti, dos riscos nos discos, e do rap. E se expressando, coerente ou incoerentemente, é notório o desenvolvimento da dimensão espiritual, haja vista o componente emocional que está sendo manipulado nestas atividades. “A vida já não é mais a mesma, o mundo a sua volta é interpretado de outra forma”.
A relação interpessoal é um ítem fundamental neste processo. No Hip-Hop a humildade e a solidariedade dos mais experiêntes no trato aos mais novos no movimento é um grande aliado para o processo de significação das informações transmitidas, operando e alimentando o componente emocional destes individuos. É só pensarmos que para uma criança em situação de vulnerabilidade fisica, emocional e social, ser amparada e tratada com carinho e respeito pelo Mano Brown em um evento, ou outro grande ícone do movimento Hip-Hop, seria um divisor de águas na sua vida. As informações são importantes, mas a dinâmica na qual as relações ocorrem são igualmente importantes, talvez até mais importantes se pensarmos no engajamento ou mudança de comportamento.
Penso que seria importante uma reflexão neste sentido. Acredito que é necessário um ‘fazer diferente’ nas nossas ações enquanto militântes, para a promoção de uma mudança no padrão de pensamento das pessoas. Não acredito que apenas a garantia da transmissão de informações possa gerar algo significativo para a superação do racismo e do machismo, por exemplo.
É algo além disso.. . O que faz um homem mudar suas atitudes no dia-a-dia de modo a reproduzir menos o machismo, talvez tenha mais relação com uma mudança de sentidos do que propriamente com um acumulo de o informações sobre o machismo e a luta anti-machista. Enfim… .
O título original do artigo é “Uma singela reflexão sobre informação, conscientização, e transformação”

José Evaristo Silvério Netto