Brasília – Na mesma semana em que o reitor Thimothy Mulholland, decidiu instaurar processo administrativo disciplinar contra o professor Paulo Kramer, do Instituto de Ciências Políticas, acusado de racismo por alunos, o Departamento de Sociologia, sorrateiramente e sem qualquer alarde, engavetou denúncia contra outro professor da Universidade de Brasília – desta vez, o de Sociologia, Thadeu de Jesus e Silva Filho – que, em sala de aula, se referiu aos negros de forma depreciativa.
De acordo com as alunas Anita Cunha Monteiro e Juliana Floriano Watson, numa aula de Introdução à Metodologia em Ciências Sociais, entre outras afirmações, Silva Filho teria dito o seguinte: “o atraso do Brasil se deve a que os negros tem pensamento mágico”; “onde se viu um negro bonito?”;”vocês já viram um negro maestro de orquestra sinfônica?”; “negros não podem ganhar uma carreira de natação porque tem os ossos pesados de mais e afundam”; “samba de roda não chega aos pés da música européia”. A denúncia das estudantes está na Afropress, edição de 03 de julho passado.
Na reunião que apreciou a representação impetrada pelas alunas, os membros do Colegiado reduziram a dimensão do caso, desqualificaram a denúncia feita e optaram – sem qualquer investigação – pela versão do acusado, que, claro, negou.
Ao final, os professores João Gabriel Lima Cruz Teixeira, chefe em exercício, Arthur Trindade Costa, coordenador dos Cursos de Graduação, Brasilmar Ferreira Nunes, Sadi Dal Rosso e Maria Stela Grossi Porto, saíram em defesa da “liberdade de cátedra”. “O Colegiado considera que não é sua de atribuição ou competência, além de fugir aos princípios da universidade e da liberdade de cátedra, ‘controlar’ seus professores no espaço da sala de aula, ainda que reconheça que tal liberdade obedece a limites éticos que não devem ser ultrapassados”, afirma o parecer.
No caso Kramer, o processo administrativo disciplinar foi aberto e a denúncia e uma Comissão designada pelo reitor tem 30 dias, prorrogáveis por mais 30, para apurar. Se considerado culpado, as penas pode ser de advertência, suspensão ou exoneração.
“Veja, na íntegra, a “peça” do Colegiado”
À Comunidade Universitária:
O Colegiado do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, em sua reunião ordinária de 12 de julho de 2006, examinou e discutiu a carta em que Anita Cunha Monteiro e Juliana Floriano Watson, alunas do curso de graduação em Ciências Sociais, acusam o Professor Substituto, Thadeu de Jesus e Silva Filho, de proferir declarações consideradas racistas pelas mesmas. Ao término da discussão, o Colegiado decidiu emitir a presente nota de esclarecimento.
Primeiro, o Colegiado não entendeu as razões pelas quais a referida carta, datada de 27 de março de 2006, somente ter sido formalmente entregue à Coordenação do Curso em 28 de junho de 2006. Esclarecemos que quaisquer queixas ou denúncias de práticas discriminatórias por parte dos docentes, discentes e funcionários/as do Departamento de Sociologia, devidamente fundamentadas, devem ser encaminhadas à chefia do departamento ou às coordenações de cursos com a maior brevidade possível para que sejam tomadas as medidas cabíveis.
Segundo, o Colegiado esclarece que ambas as partes envolvidas foram ouvidas pelo chefe em exercício e pelo coordenador de graduação e que o Professor Thadeu negou ter sido autor das declarações citadas pelas alunas, nos termos mencionados pela carta. Desta forma, a menos que as alunas tenham como comprovar tais afirmações, não há como, concretamente, averiguá-las. Assim, não há elementos que justifiquem o encaminhamento do caso as instâncias competentes da universidade para que instaure procedimento administrativo e/ou jurídico cabível.
Terceiro, o Colegiado considera que não é sua de atribuição ou competência, além de fugir aos princípios da universidade e da liberdade de cátedra, ‘controlar’ seus professores no espaço da sala de aula, ainda que reconheça que tal liberdade obedece a limites éticos que não devem ser ultrapassados.
Por fim, o Colegiado do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília coloca-se radicalmente contrário a quaisquer atitudes e/ou declarações dos seus membros que possam ser consideradas preconceituosas e injuriosas, sejam de teor racista, machista, sexista ou homofóbico. Neste sentido, reafirma a necessidade do mais estrito respeito ao princípio universal dos direitos humanos, da justiça e da igualdade na cidadania.
João Gabriel Lima Cruz Teixeira (Chefe em exercício), Arthur Trindade Maranhão Costa (Coordenador dos Cursos de Graduação), Brasilmar Ferreira Nunes, Sadi Dal Rosso, Maria Stela Grossi Porto

Da Redacao