Brasília – Por trás do discurso em defesa da Marcha no dia 16 de novembro está a Fundação Ford, que está bancando a ação política dos setores que defendem essa data, e o coordenador do Irohin, Edson Cardoso, pretende, na verdade, é demarcar campo como parte de um projeto político pessoal e não do Movimento Negro brasileiro.
A afirmação foi feita pelo historiador Edson França, da Comissão Executiva Nacional da União de Negros pela Igualdade – UNEGRO – (entidade ligada ao PC do B) e membro do Comitê Impulsor da Marcha, que juntamente com entidades como a Coordenação Nacional de Entidades (CONEN) e o Movimento Negro Unificado (MNU) e Sindicatos ligados a CUT, defendem a Marcha no dia 22 de novembro.
França rebateu as acusações de Cardoso de que a CONEN, o MNU e a UNEGRO – organizações que tem adotado uma posição mais próxima do Governo Lula – pretendam esvaziar o conteúdo autônomo e independente da Marcha, depois de não terem conseguido cancelá-la. “Por trás de toda essa retórica, o que ele está fazendo é tentando demarcar campo pra atuar. Está sendo personalista. É uma característica dele. Quer garantir-se como agente político com capacidade de interlocução em âmbito nacional”, afirmou.
Quanto à acusação de que organismos internacionais como a Fundação Ford estariam fomentando a divisão, França acrescentou: “A Fundação Ford está bancando o Irohin (Jornal editado por Cardoso, cujo nome quer dizer A Notícia, em Ioruba). Bancar projeto é uma coisa, ação política é outra”, frisou.
A divisão em torno da data da Marcha Zumbi + 10, que pretende levar a Brasília uma pauta com reivindicações históricas da população negra, celebrando os 10 anos da primeira manifestação desse tipo, é atribuída por Cardoso e pelas entidades que defendem a data de 16 de Novembro, aos setores que querem transformá-lo em ato pró-Governo. Cardoso disse que esses setores foram responsáveis pela quebra de acordo que havia sido fechado em julho e apostam na divisão do Movimento.
Entre os setores que defendem a Marcha no dia 16 estão entidades históricas do Movimento Negro, como a GELEDÉS e o Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades (CEERT), este último dirigido pelo agora Secretário de Justiça e Defesa da Cidadania de S. Paulo, Hédio Silva Jr. até assumir a pasta em maio deste ano.
Essas entidades reuniram-se em Brasília nos dias 13 e 14 deste mês e lançaram um Manifesto denunciando a corrupção no Governo Lula, exigindo punição para os culpados no escândalo do mensalão e propondo a recriação do Estado brasileiro, baseada nos princípios do anti-racismo e do anti-sexismo.
Retórica – Para o dirigente da UNEGRO e do Comitê Impulsor da Marcha, entretanto, por trás dessas posições há muita retórica e as críticas não explicitam as posições políticas. “Não tem nada a ver. O campo que está com ele votou em peso no Governo Lula”.
França disse que não entende a posição de algumas entidades como o GELEDÉS e o CEERT. “O campo que está com ele foi traído. Eles empoderaram uma liderança, só que essa liderança foi irresponsável e não haverá retorno”, acrescentou.
Além de negar que a razão das divergências seja a maior ou menor alinhamento e proximidade dos setores que representa com o Governo Lula, França disse que os setores que falam em independência e autonomia em relação ao Governo não estão sendo coerentes. “A Marcha é do Movimento Negro. Temos reivindicações ao Governo, mas queremos também dialogar com o Congresso, com os Governos dos Estados, articulação nacional de prefeitos, etc. A Marcha não é contra o Governo, como, em 1.995, também não foi contra FHC. Não fizemos a Marcha de 95 contra o Governo, para criar constrangimento. Como também não faremos isso agora”, enfatizou.
Ele negou que a articulação que defende o 22 esteja pretendendo atrelar a data ao lançamento do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial pela Seppir. “Não tenho conhecimento disso. Se isso acontecer, não vou dizer que é uma coincidência, mas não preparamos isso”, afirmou.
França defendeu a ação dos militantes negros que atuam nos Partidos e disse que é despolitizada a posição dos que se negam à disputa política e se acomodam fazendo projetos e “vivendo do racismo”. “Nós estamos fazendo a disputa política. Nós brigamos pela nossa pauta nos Partidos. Temos de disputar poder político. Temos de estar em todos os lugares – Partidos, Sindicatos, empresas, Igrejas, Universidades etc. Tem de parar com esse maniqueísmo entre quem faz a disputa nos partidos e quem não faz. Essa postura é despolitizada. Não concordamos com a atitude de alguns que só querem ganhar um dinheirinho com a sua ONG, fazendo projeto. Desse jeito você não muda a realidade, vai viver de racismo”, finalizou.
Veja as posições do dirigente da UNEGRO e do Comitê Impulsor em relação a outros pontos que estão no centro da polêmica:
1. Ausência de críticas ao Governo Lula e falta de análise da crise política aberta pelo escândalo do mensalão:
“Eles estão criticando o Governo agora. Mas, reconheço que isso é uma debilidade nossa. Nós também vamos ter de falar”.
2. Diferença de concepção da Marcha:
“Há, sim, um problema político. Entendemos que o racismo tem de ser combatido por todo o mundo. A Marcha deve ser do Movimento Negro, as reivindicações são do Movimento Negro e anti-rascista”.
3. Possibilidade de unidade entre os dois setores:
“Vamos continuar tentando unir forças com as entidades do campo do Edson Cardoso, mas a data da Marcha é 22 de novembro. Com Edson Cardoso não tem mais conversa”.
4. Papel do Senador Paulo Paim, que tentou mediar um acordo entre os dois grupos, em duas reuniões (uma em julho e a outra em 21/agosto) no sentido de uma data única:
“Eu não consegui entender até agora. Estou muito decepcionado porque ele mentiu pra gente. Na reunião de julho dissemos que a foto tirada não representava acordo. Ele disse que era para o seu arquivo pessoal. Depois a foto foi reproduzida por 10 mil exemplares do jornal Irohin. Mentiu e não entendo por que fez isso”.

Da Redacao