S. Paulo – O historiador Edson França (foto), coordenador geral da União de Negros pela Igualdade (UNEGRO) – a corrente política composta por ativistas ligados ou próximos ao PC do B, majoritária na II Conapir, com 147 delegados – considera a discussão do Estatuto saturada e diz que o momento é de negociação para aprová-lo “pois não interessa nem ao Movimento nem a população negra mais 10 anos de debates sem objetividade”.
Na entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, França chamou de “quixotismo dos inocentes”, os que não querem processo sério de negociação, e “os que acreditam que estando na contramão dos processos conquistam visibilidade política”, a inspiração do “Manifesto em Defesa dos Direitos e da Autonomia Política da População Negra”, lançado por militantes e entidades contestando os termos do Estatuto aprovado, segundo eles, fruto de negociações no Congresso que teriam resultado na sua descaraterização. “Há oportunismo político nesse debate do Estatuto”, denuncia França.
Quanto às críticas ao ministro Edson Santos e a Seppir, por ter dirigido as mesas das plenárias, disse que “beiram à insanidade”. “Penso que há aqueles que estão dispostos a tudo que o Ministro Edson Santos fizer, usar contra ele, mesmo que a crítica beire a insanidade”. “Não podemos adotar posições irresponsáveis, estamos num período de dificuldade para aprovação de nossas propostas e avanço de nossas lutas”. E finalizou. “Fogo amigo também mata”.
Veja, na íntegra, a entrevista do coordenador geral da UNEGRO à Afropress.
Afropress – Há setores que dizem que o texto aprovado na Conferência era desconhecido dos delegados. O que tem a dizer a respeito?
Edson França – Está saturada a discussão do Estatuto, as posições estão explicitadas e cristalizadas. Estamos no momento de negociação para aprová-lo, pois não interessa ao Movimento Negro e a população negra mais 10 anos de debates sem objetividade. O voto da esmagadora maioria dos delegados e delegadas na conferência aprovou essa tese. Digo mais, tem gente que precisa entender o sentido da democracia. Compreendo que aceitar decisões de maioria após um longo processo de discussão é um dever democrata. Podem manter a discordância, mas tem o dever de acatar a legitimidade da escolha e parar com essa mania feia de desqualificar asposições divergentes, sob pena de perdemos qualquer referência ou capacidade de construção coletiva. Não há quem no Movimento Negro não tenha opinião sobre o Estatuto acumulada muito antes da CONAPIR.
Afroopress – Qual a razão para a polêmica que está sendo levantada, inclusive, com algumas lideranças e entidades do Movimento Negro?
França – Duvido que existam organizações que não tenham um diagnóstico da correlação de forças no Congresso Nacional e na sociedade brasileira acerca do apoio ao Estatuto; que não saiba que a arregimentação de uma base parlamentar composta pelo DEM, PSDB, PPS, bancada ruralista, bancada evangélica e setores vacilantes do centro e da esquerda tem poder numérico, teórico e político de enterrar definitivamente o Estatuto e com ele a possibilidade de conquistarmos política de Estado que enfrente o racismo e a desigualdade social e econômica entre negros e brancos.
Salvaguardando o quixotismo dos “inocentes” que ainda acreditam que há espaço para somente defender a proposta e não entrar num processo mais sério de negociação, tem aqueles que acreditam que estando na contramão dos processos conquistam visibilidade política. Em outras palavras, há oportunismo político no debate do Estatuto.
Afropress – Qual é a posição da UNEGRO em relação ao substitutivo?
França – Somos favoráveis ao resultado do trabalho da Comissão Especial instituída pelo então, Presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, que desengavetou o Estatuto da Igualdade Racial e a Comissão retomou o debate, negociou termos possíveis para sua aprovação e acatou sugestões que enriqueceram o texto. Vencemos algumas perdas que inviabilizaria totalmente o Estatuto, tal qual o caráter autorizativo aprovado no Senado. A UNEGRO não inventa a roda, construímos os processos no dia-a-dia e a vida tem nos ensinado que a fase da retórica está esgotada. Temos responsabilidade com a população negra e com nossa base social que está sedenta de algo mais concreto que palavras. Além de opinião na Internet é necessário garantir presença física para uma participação mais justa e qualificada. Respeitamos todas contribuições, mas estamos carente de pessoas e entidades que trabalhem.
Afropress – O que está por trás desse debate, em que parece que o ministro Edson Santos, começa a ser questionado, inclusive por ter tido um envolvimento direto na direção das plenárias?
França – Incompreensão de que as teses absolutistas estão enterradas desde finais do século 18; Luis XIV já era. Esquecem que uma das características mais marcantes do carismático Presidente Lula é sua capacidade de se colocar muito próximo do povo. Os senhores de engenhos e os coronéis não mandam mais no Brasil, podemos enterrar a síndrome da senzala e da capangagem. Mas, fundamentalmente, penso que há aqueles que estão dispostos a tudo que o Ministro Edson Santos fizer a usar contra ele, mesmo que a crítica beire a insanidade.
Considero um marco a presença de toda direção da Seppir (Ministro, Adjunto, Chefia de Gabinete, Subsecretários, Secretaria Executiva d CNPIR e membros do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial), na mesa dirigindo os trabalhos. Estavam dando a cara à tapa durante toda conferência, se expuseram, não se esconderam covardemente com medo de críticas da plenária, são pessoas sérias, estão de parabéns.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
França – Temos que ter capacidade de localizar as críticas, não podemos adotar posições irresponsáveis, estamos num período de dificuldades para aprovação de nossas propostas e avanço de nossas lutas. A ausência do Presidente da República, dos ministros, governadores, prefeitos, parlamentares e dos meios de comunicação de massa na Conferência, mostra o lugar que se encontra a igualdade racial no Brasil.
Temos que fortalecer nossos espaços, exigir respeito aos órgãos, aos gestores e as organizações sociais que lutam contra o racismo. Fogo amigo mata!

Da Redacao