Salvador – O samba de roda da Bahia acaba de ser declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como patrimônio oral e imaterial da humanidade.
O dossiê da candidatura foi enviado à organização no ano passado por uma equipe que, durante três meses, pesquisou e reuniu em andanças por 30 municípios do recôncavo baiano todos os elementos que integram uma das mais tradicionais manifestações da cultura popular brasileira.
Do dossiê fazem parte as referências históricas, suas funções social e simbólica, seus gêneros, estilos e influências, sua importância como fonte de inspiração para trocas interculturais e como matriz da música brasileira. Conta ainda com dois vídeos – um de dez minutos e outro de duas horas – com apresentações e depoimentos dos sambadores e sambadeiras, farto material fotográfico e um CD, com lançamento comercial programado para fevereiro de 2006.
Com a decisão o samba de roda, que corria o risco de extinção, passa a ser a segunda expressão imaterial brasileira consagrada como patrimônio da humanidade. A primeira foi o conjunto de artes gráficas dos índios waiãpi, do Amapá, que é reconhecido desde 2.003. O primeiro edital de declaração de obras-primas do patrimônio imaterial foi aberto em 2001 – quando o Brasil não apresentou candidato.
“A Unesco reconheceu a riqueza dessa diversidade cultural presente no nosso samba e que se expressa numa variedade enorme de estilos e danças, instrumentos e canto. Tudo realizado por quem vive precariamente, mas que carrega uma tradição extremamente rica”, diz o jornalista Josias Pires, pesquisador de cultura popular e membro da equipe que produziu o dossiê. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Ifhan) já havia concedido título semelhante ao samba-de- roda em outubro de 2004.
“Ao reconhecer o samba-de-roda, a Unesco se compromete com o plano de salvaguarda que acompanhou o dossiê e prevê uma série de ações de resgate e preservação”, comenta o coordenador da pesquisa, o carioca radicado no Recife (PE) Carlos Sandrone.
Sandrone destaca que a presença de pesquisadores baianos na equipe foi fundamental para o sucesso da candidatura. “A gente conseguiu basicamente porque a equipe reunia pessoas da Bahia que já tinham contato com o samba-de-roda, então não começamos do zero. Estive pela primeira vez no recôncavo em junho de 2004, e desde o início os sambadores e sambadeiras também acreditaram na importância da distinção que estava sendo pleiteada”, conta o pesquisador.
“Eu tô de parabéns, não estou?”. A pergunta de dona Dalva Damiana de Freitas, 77 anos, vem acompanhada de um êxtase que poucas vezes ela parece ter experimentado na vida. “Eu e todos daqui da região, a humanidade toda, né?”. A sambadeira, que desde os 13 anos arrasta o passo ao som dos batuques e violas na cidade de Cachoeira, transformou a brincadeira de quintal num estandarte da originalidade que entope a musicalidade local de riqueza sonora e gestual.
Em São Francisco do Conde, a pressão arterial de Mãe Áurea, a ialorixá de 72 anos do terreiro Angurusena Dya Nzambi, foi à estratosfera com a notícia que atravessou o mundo. Velha sambadeira do tradicional grupo Raízes de Angola, que surgiu dentro de seu candomblé, Mãe Áurea literalmente ficou sem palavras. A filha Alva Célia, também da roda, conta que chorou muito quando soube. “É um riqueza que sofria com a carência, o preconceito e a precariedade. Agora, esses valores estão sendo devolvidos à comunidade do samba”.

Da Redacao