É porque mulheres e negros são vistos como menos por conta dessas duas patologias – o machismo e o racismo – que nos pagam menos (em média, a metade ou até menos, pelas mesmas funções), nos negam acesso aos espaços de poder, nos tratam com estereótipos, quando não nos humilham em nosso cotidiano.
A decisão da Uniban (Universidade Bandeirantes) de expulsar a aluna Geisy Arruda – vítima há duas semanas de um verdadeiro linchamento moral apenas porque trajava um vestido vermelho, um palmo acima do joelho – é um retorno às trevas e ao obscurantismo medieval.
A expulsão de Geisy “em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”, anunciada numa Nota Pública em que a “Universidade” garante que “A Educação se faz com atitude e não com complacência”, é um hino ao autoritarismo; uma declaração despudorada de como a instituição assume o papel de polícia dos costumes e se coloca vergonhosamente ao lado de “machos em fúria que tomaram a estudante por objeto do seu desejo reprimido e recalcado”, avalizando a selvageria.
Ao dar razão aos agressores, a Uniban se torna cúmplice – não apenas por omissão, mas pela ação – e desce ladeira abaixo no seu conceito de instituição de ensino; rompe com padrões civilizatórios mínimos.
Entretanto, a atitude conservadora e machista de uma instituição que, embora privada, funciona por concessão pública, deve ser não apenas denunciada, mas servir como sinal de alerta: sim, é possível, em pleno século XXI, em S. Bernardo (berço do novo sindicalismo, do PT e da CUT, e palco das grandes lutas pela democracia nos 70 e 80 e, não por acaso, cidade domicílio do Presidente da República); sim, é possível é possível no Brasil, retrocessos que nos levam diretamente de volta às trevas da inquisição medieval, numa espécie de túnel do tempo.
A Uniban deve assumir, doravante, o nome fantasia de Universidade Taleban. Tornou-se, no plano dos costumes, irmã siamesa da cultura homônima do regime que governou o Afeganistão até ser derrubado, em 2.002, e que, além de polícia de costumes – forçando as mulheres ao uso da burka que lhes cobria completamente o corpo e o rosto, sob pena de chibatadas e castigos cruéis – tornou-se símbolo de até onde pode chegar a intolerância e a estupidez humanas; paradigma do atraso mental e espiritual da espécie.
O que a decisão da “Universidade” projeta para o futuro, com esse gesto, contudo é, mais preocupante. Com a expulsão, a Uniban/Taleban avaliza e autoriza o linchamento moral e outorga aos machos de plantão o direito de decidir como uma mulher deve se vestir, quando está ou não vestida adequadamente para os seus padrões.
Tudo a ver, como se vê, com os modelos patriarcais, da mulher transformada em objeto de cama e mesa para servir e saciar a vontade e os desejos de machos em fúria – e que, pelo menos em público – “devem estar vestidas adequadamente”.
É vergonhoso. É obsceno para todos nós, homens e mulheres – negros e não negros – que, ao contrário do verso da música de Caetano, em A Dama do Lotação, sabemos, sim, “onde colocar o desejo”.
Respeitem os princípios éticos, a dignidade humana de uma mulher, que está acima de qualquer dignidade acadêmica, e muito mais dessa tosca academia dos costumes que pretendem tomar por Universidade.
Quanto à moralidade a que se referem para praticar essa violência, façam dela bom proveito. Só deve ser útil mesmo a quem se pauta por práticas retrógradas e medievais e, acima de tudo, hipócritas.

Dojival Vieira