S. Paulo – Nem mesmo o controvertido e polêmico Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior (PIMESP), proposto pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais paulistas (CRUESP), com as bençãos do governador Geraldo Alckmin, alvo de duras críticas e restrições por parte de setores do movimento negro, é aceito pela Universidade de S. Paulo (USP).

A USP deverá votar ainda neste mês proposta que prevê a criação de bônus de 5% no vestibular para candidatos de escolas públicas que se declararem pretos, pardos ou indígenas, benefício atualmente inexistente, deixando de lado a fixação de metas previstas no PIMESP, coordenador pelo reitor da Universidade Virtual Paulista (UVESP), Carlos Vogt (foto na capa). A proposta também prevê aumento de bônus de 15% para até 20% para alunos da rede pública e o adiamento do prazo para cumprimento de metas previstas no PIMESP de 2016 para 2018.

Seria uma forma de fazer com que o processo “seja feito de modo responsável”, segundo disse a Pró-reitora de Graduação, professora Telma Zorn, ao repórter Fábio Takahashi, do jornal Folha de S. Paulo.

A universidade de maior prestígio no Brasil e na América Latina – e que mais resiste a adoção de políticas de ação afirmativa e cotas – continua fazendo ginástica retórica para se opor a presença de negros, mesmo depois que estudo do perfil dos alunos inscritos no Vestibular do ano passado revelou que entre os 774 matriculados nos 10 cursos mais concorridos só haviam quatro pretos – 0,5% do total.

Em S. Paulo, pretos e pardos correspondem a 34,6% (29,1% pardos e 5,5% de pretos) dos 42 milhões de paulistas. São Paulo é o Estado com maior população negra do país – em números absolutos: cerca de 14,5 milhões de habitantes, segundo o Censo do IBGE 2010.

Adiamento

Se a proposta da USP for aprovada um aluno negro que cursou o ensino fundamental na rede pública, por exemplo, poderá ter acréscimo de até 25% na sua nota no vestibular, ao invés dos 15% possíveis no momento. A medida é vista como subterfúgio para esconder o que a USP vem fazendo há anos: evitar a presença de negros na Universidade, sob o argumento da defesa da "meritocracia", mesmo depois que o Supremo Tribunal Federal (STF), em abril do ano passado, considerou as cotas para negros e indígenas constitucionais.

Na proposta, que surgiu após consulta as 42 unidades da Universidade, também é rejeitada a ideia da criação do “college”, outro ponto do PIMESP que gerou críticas e controvérsias. O “college” é um curso superior semi-presencial de dois anos a ser criado, que permitirá  a alunos da escola pública (em especial, pretos, pardos e indígenas) que tiverem até 70% de aproveitamento ter acesso ao ensino superior em qualquer das universidades paulistas. Lideranças do movimento negro defendem que a proposta do "college” é "segregacionista e discriminatória".

Números de apartheid

Estudo recente divulgado revelou que, este ano, apenas 7,7% dos aprovados pela FUVEST estudaram em escolas públicas, o que representa uma redução em relação ao ano anterior, quando 8,36% dos alunos aprovados eram oriundos do sistema público de ensino.

No total, na USP, só 28,5% dos ingressantes estudaram em escolas públicas – 71,5% são oriundos de escolas particulares, o que vale dizer que, de cada 3 alunos, dois são de escolas particulares. No Estado de S. Paulo, 90% das vagas disponíveis para acesso à instituições do ensino superior pertencem a faculdades privadas – só 10% são públicas.

 

 

 

Da Redacao