A tevê também mostrou que, no interior mineiro, em Itambé Campo Adentro,os cidadãos deixam as portas e janelas abertas. O último crime ocorreu há nove anos; a cadeia jaz às traças, graças ao bom Deus.
No meio de notícias sobre outra espetacular vitória da Beija Flor de Nilópolis – a escola que há décadas revolucionara o carnaval – o telefone disparou a tocar. Era o escritor Ogã Gilberto de Exu, presidente da International Conference of Orisha and tradition e do primeiro afoxé de Sampa, nascido em 1980, que abre o desfile das escolas na terra da garoa.
Senti a solenidade na voz do amigo:a ventania antes do caos. Compreendi meu sentimento de vazio premonitório ao ser informada da morte do babalorixá Valdemiro de Xangô, na manhã daquela quarta de cinzas: o responsável por introduzir no Rio, São Paulo e Curitiba toda uma tradição cultural ioruba antes apenas vivenciada na Bahia e Pernambuco.
Os baianos Valdemiro (Valdemiro Costa Pinto, com e, apesar de ser chamado “Valdomiro”) Joãozinho da Goméia e Bobó de Iansã – viraram a cidade maravilhosa pelo avesso no início da década de 60. Na condição de sacerdotes do sexo masculino, em um culto predominantemente liderado por mulheres e, também, carnavalescos vanguardeiros, compunham o “trio alegria” que, escandalizando muitos, no carnaval vestia-se de baiana: saia, camisu, bata, torso, balangandãs.
Valdemiro de Xangô, 77 anos, escuro, alto, rápido, imponente, filho do finado Cristóvão de Ogum e de Mãe Menininha, foi o mais importante babalorixá vivo de nossos tempos; situa-se dentre os principais sacerdotes da diáspora. A trajetória de Valdemiro paira muito além de dogmas religiosos. Antes de ele mudar-se para o Rio e São Paulo, no final dos 1960, comida baiana (acarajé, abará, vatapá, caruru) era ignorada pela maioria dos habitantes e vista com olhos caipiras de desdém. Depois de Valdemiro – exímio cozinheiro e pai-de-santo de centenas, talvez de milhares de pessoas – a comida da Bahia passou a ser mais difundida e devidamente apreciada em todo sudeste e sul do Brasil.
As guloseimas dos terreiros pertencem a diferentes divindades e fazem parte da religião de matriz iorubá introduzida em São Paulo, nos referidos 1960, por Diniz de Osun e Valdemiro “Baiano”. A maioria dos terreiros de São Paulo descendem deste querido filho de Xangô, mais um porreta nos braços de Deus. Importante o registro, minha gente, pois a memória patropi é prá lá de tendenciosa e curtíssima.

Cléo Martins