Rio – Há 85 anos, no dia 07 de abril de 1.924, o Club de Regatas Vasco da Gama disse não à discriminação de jogadores negros, cuja exclusão era exigida pela Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), presidida por Arnaldo Guinle, da tradicional família carioca.
“Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa”, diz o presidente vascaíno da época, José Augusto Prates, em ofício enviado a Guinle.
Guinle, que liderava a Associação fundada pelos cinco clubes mais influentes do Rio, na época, América, Bangu, Botafogo, Flamengo e Fluminense, resolvera punir o Vasco porque o clube mantinha atletas negros. Doze atletas – a maioria deles negros e nordestinos pobres – eram considerados por ele jogadores de “profissão duvidosa” e por isso era exigida a sua expulsão.
No dia 07 de abril, a diretoria do Vasco produziu “A Resposta Histórica”. O Clube se manteve na Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, na qual, enfrentando os cinco grandes conquistara o Campeonato Carioca de 1923, o primeiro de um time com atletas negros na sua maioria.
No campeonato do ano seguinte – 1924 – o time conquistou 16 vitórias em 16 jogos, sagrando-se campeão invicto. Em 1925, o Vasco foi admitido na AMEA de forma incondicional e voltou a enfrentar os “grandes” com seus atletas negros, mulatos, nordestinos e pobres.
Pela história do Vasco na luta contra a discriminação anti-negra, na Sala de Troféus da sede em São Januário, há uma placa com os seguintes dizeres: “Sem o Vasco, o futebol brasileiro não teria conhecido Pelé”.
Veja a carta enviada pelo presidente José Augusto Prates, no dia 07 de abril de 1.924, aos Guinle
Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.
Ofício nr. 261
Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle
M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos
As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.
Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.
Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.
Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.
São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.
Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.
Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado
(a) Dr. José Augusto Prestes
Presidente

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