Quando leio que a Vasti ao desobedecer ao rei, numa realidade completamente machista desencadeou um grande problema para o Estado da época a ponto dos conselheiros do rei afirmarem que a Vesti deveria ser punida deixando de ser rainha para não fazer com que as mulheres desobedecessem aos maridos, fico pensando que existe o tempo certo para fomentar uma revolução em busca da justiça.
Pois, coitada da Vasti, ela simplesmente lutava pelo seu direito de mulher. Queria ser respeitada e não ser objeto nas mãos do rei que simplesmente chamava e as mulheres a ele obedeciam. Ela estava se rebelando contra o mecanismo de poder que determinava ser o homem o dono das mulheres.
A Vasti desobedeceu a ordem do rei e causou um reboliço no reinado deixando o rei , digamos, sem outra opção. Será? Será que o rei não poderia aproveitar esse momento para restabelecer a ordem mudando a maneira de o povo pensar? Mas, como homem naquela sociedade ele não podia fazê-lo.
Além disso, tirava as suas vantagens por não fazer com que aquele mecanismo opressor deixasse de existir. Ali estava sendo colocado em chegue o seu poder. Não de marido mais de rei. Portanto, um rei devia manter a sua casa, digo, mulher, sobre a sua autoridade. Vasti questiona tudo isso e sofre as conseqüências. Das conseqüências sofridas ela perde o seu posto de rainha.
O rei escolhe dentre tantas mulheres lindas uma jovem negra que era considerada a mais bela. Ester era uma israelita que mexeu com o rei desde o primeiro contato. Ela se tornou rainha entrando no lugar de Vasti. Como rainha não poderia aparecer diante o rei sem que fosse chamada. Isso seria também uma desobediência civil.
Naquele reinado havia um homem que odiava os israelitas. Seu nome era Hamã. Ele era reconhecido pelo rei e tinha cargo importante no palácio. Estava acima de todos os príncipes.
Um homem chamado Mardoqueu não atendeu a ordem do rei de se inclinar perante o Hamã. Isso o enfureceu tanto que montou um plano para destruir todo o povo judeu. Construiu até uma grande forca onde, como exemplo, enforcaria Mardoqueu. Mardoqueu era tio da Ester. Parece que Ester aprendeu muitas coisas com esse homem.
Ele era um desobediente civil. Não aceitava as injustiças. Certa vez ouviu alguns homens tramando uma maneira de matar o rei e tomar o reinado. Ele logo se pôs ao lado do rei e os denunciou. Detestava as injustiças.
Diante da promessa de Hamã de destruir o povo judeu Ester também aderiu à desobediência civil. Incentivada pela coragem do seu tio que se vestiu de saco e não aceitou a ordem da própria rainha de se vestir com outras roupas e ainda lembrou a ela que não devia se esquecer da origem que tinha, pois era judia, Ester foi ao rei mesmo sem ser chamada. Mesmo sabendo que poderia morrer na forca por essa afronta.
Ao ir ao rei lhe faz um convite para um banquete e também convida o Hamã. Os convida novamente e assim relata o que Hamã estava tramando contra o seu povo. O que aconteceu? Aquela forca imensa construída para matar Mardoqueu serviu para que o próprio Hamã fosse enforcado. Quem deseja o mal colhe o mal sobre si.
Conto essa história de maneira não tão detalhada e rápida das Escrituras Sagradas para lembrar os negros lá nos E.U.A quando começaram um boicote aos ônibus porque tinham que andar em lugares determinados e de pé por serem negros.
Trago a lembrança a mulher que resolver não se levantar do banco do ônibus ao ser interpelada por um branco. Pessoas que resolveram desobedecer a ordem estabelecida. Como Ester, Mardoqueu e até a Vasti.
O interessante é notar o momento em que essa desobediência civil se tornou realidade. Não foi nada programado. Como não foi com as personagens bíblicas, também não o foi, pelo menos em primeiro momento, como os afro-americanos. Enquanto Vasti promove a desobediência civil e é afastada do trono e castigada, a Ester encontra o tempo certo.
Talvez, a diferença ai esteja relacionada ao Kronos e Kairós. Para a Vasti o tempo era o tempo presente. O tempo ordinário. Mas, para Estar o tempo era o Kairós, o tempo certo, o tempo de Deus, o tempo da oportunidade.
Estamos vivendo no Brasil, principalmente na maior cidade que é São Paulo, um tempo único. Quem sabe o Kairós,o tempo de Deus! Muitos incidentes estão ocorrendo na cidade e no país como um todo em relação ás manifestações de racismo.
Nestes últimos meses vimos menino etíope sendo “confundido” com meninos de rua, uma jovem sendo ridicularizada por causa do cabelo, moço sendo objeto de violência por estar numa universidade que a priori não tem nenhum processo estabelecido de inclusão especifica para a população negra e muita mais que a mídia não se importou ou que nela não chegou. Por isso também vimos jovens desobedecendo a ordem estabelecida não por lei, mas socialmente.
Um shopping que geralmente é freqüentado pela elite por quem te poder, lugar que mostra as diferenças sociais na cidade de São Paulo, foi invadido pacificamente por militante que protestaram contra as ações racistas na cidade. Não era um shopping comum, mas um lugar onde os “diferenciados” como são chamados os pobres e negros da cidade por quem mora no bairro.
Ao chegarem logo os seguranças tentaram intimidá-los, mas como perceberam que ficaria muito pior tentar conter aquela multidão de gente preta e branca, negros na identidade e busca por justiça, os seguranças deixaram os manifestantes a vontade reconhecendo que aquela ação era pacífica.
A busca por justiça, já aprendemos com o Dr. Martin Luther King, deve ser pacífica e ter como princípio a não violência. Mesmo que já tenhamos visto a violência como instrumento da luta como forma importante para destruição de estruturas opressoras. A não violência tem se mostrado mais eficiente. Mas ela sempre deve vir acompanhada da desobediência civil.
Se não, da desobediência da ordem social estabelecida se esta ordem for opressora, excludente e racista. Assim fizeram os manifestantes na cidade de São Paulo. Assinaram que aquele lugar também é dos negros.
Assinaram que protestavam contra a invisibilidade dos negros e negras naquele lugar. Reescreveram a história daquele lugar mesmo diante de protestos dos que revelavam o azedume causado por preconceitos e racismos. Sim, porque o racismo azeda a alma. Faz o indivíduo cheirar mal.
Não foi uma desobediência civil como foi a de Ester e Vasti. Nem foi uma desobediência civil como a dos moradores de pinheirinho. Mas, marcaram presença num espaço. Numa tática simples tomaram a palavra e protestaram contra a indiferença.
Romperam as estratégias estabelecendo lugar. Como diz Michel De Certeau: “A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos e ameaças […] A tática não tem por lugar senão o do outro. A tática é movimento dentro do campo do inimigo” – aquele lugar é sempre freqüentado por quem detém o poder e de sua mecânica se alimenta como informa Foucault: “Mas quando penso na mecânica do poder, penso em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida quotidiana”.
Mas, a partir da chegada daquele grupo de pessoas que não admitem mais ações racistas, excludentes e preconceituosas aquele lugar foi transformado num palco de expressões diversas de luta por justiça e por verdadeira democracia. Onde não deve haver lugar estabelecido, mesmo que socialmente, por grupos específicos em detrimento de outros grupos por causa de posição social, cor da pele.
O canto que se ouvia era somente este:
“Por menos que conte a história/
Não te esqueço meu povo/
Se Palmares não existe mais/
Faremos Palmares de novo”
*O título original do artigo é “Vasti e Ester e os manifestantes em São Paulo: Desobediência civil e Desobediência social”

Pr. Marco Davi de Oliveira