E foi com o esse mote que o PT se elegeu. Substuindo o “Sem medo de ser feliz” do fim dos 80 pelo “A esperança venceu o medo” (francamente influenciado pela fala da atriz Regina Duarte), o PT e seus publicitários nos venderam um mundo de sonhos onde “mudança” seria a palavra-chave.
Mais uma vez fomos enganados. O medo que a esperança havia vencido ressurgiu, não entre aqueles que temiam as mudanças de rumo, mas exatamente entre aqueles que deviam ser os condutores do processo. O presidente que havia sido eleito com 53 milhões de votos em pouquíssimos meses estava costurando acordos para garantir maioria no Congresso, ao invés de capitalizar essa enormidade de votos a seu favor. A condução da economia tornou-se extensão do que já fazia o governo Fernando Henrique. As ações sociais propostas nada mais eram que o mais puro assistencialismo com um tanto de pirotecnia que, concretamente, ajuda no emergencial mas não afeta a cultura, não muda o sistema distributivo. Por fim, as relações internacionais (que rapidamente tornaram-se a jóia da coroa) só prosseguiram até o momento em que começaram a incomodar os poderosos do mundo. Ou seja, dá pra brincar de protagonista desde que não se pise nos calos e joanetes dos que, de fato, dão as cartas.
Aí veio a crise. Tantas vezes falada neste e num milhão de blogs mundo afora. Com seus Valérios, Jeffersons, Delúbios e Dirceus, a crise veio não para desestabilizar o governo (como se temeu num primeiro momento). Veio, sim, para desmoralizar a esquerda e todo um trabalho de anos. Veio à crise montada na esperteza de uns, na ambição política de outros, no patetismo de Lula e da cúpula partidária petista que nada viram, nada ouviram…
E agora, como se não bastasse, recebemos do Sul, via Luis Fernando Veríssimo, a triste notícia do falecimento da Velhinha de Taubaté. Essa senhora, que tanto acreditou nos governos dos últimos 30 anos, era o símbolo do que uma ridícula campanha governamental tenta nos impingir (“sou brasileiro e não desisto nunca”). Ela não desistia de acreditar. Acreditou até morrer.
Com a morte da Velhinha de Taubaté morre um pouco nossa credulidade. Morre cada vez mais nossa esperança. Enfim, morre até mesmo o desejo de ser feliz. Porque, francamente, com essa turma não dá pra ser feliz.
Quando vemos os lucros exorbitantes e indecentes do sistema financeiro; o endividamento alegremente incentivado pelo governo de aposentados e pensionistas; filas com mais de dois mil jovens para disputar 18 bolsas de estudo para um possível/futuro trabalho; penso que melhor está agora a Velhinha de Taubaté. Não dá pra crer que aqueles mesmos que choravam com a miséria do nosso povo; que criticavam com ódio cidadão as práticas lamentáveis do governo Fernando Henrique, tenham sido tomados de tal nível de pragmatismo que o que importa agora são os indicadores econômicos (igualzinho aos governos anteriores), esquecendo-se que por trás de todos esses números há gente com fome (como diria o Solano Trindade).
A crise é política, é moral e é ética. Mas há fatos que não devem tão somente ser debitados à crise. Este governo cede desde o início em pontos que não devia ceder. Entregar o Ministério das Comunicações a um senador de segunda grandeza como é o Hélio Costa não é contemporização com o PMDB, mas, sim, com os grandes veículos de comunicação ao qual o ministro é historicamente ligado. Aí, como ficam os compromissos políticos com as rádios comunitárias, com a comunidade do Software Livre, com aqueles que lutam verdadeiramente para fazer da comunicação um direito humano no Brasil?
O que a crise política, moral e ética tem a ver com a mudança de status da Secretaria Especial de Direitos Humanos e, concomitantemente, com os parcos recursos desta e de outras secretarias especiais como a de Promoção da Igualdade Racial e das Mulheres?
O que tem a crise política, moral e ética a ver com o fato de que a palavra “contingenciamento” tenha virado palavra-chave deste governo desde o primeiro momento de sua administração? Com o fato de que o superávit primário venha gradativamente aumentando à custa de investimentos em infra-estrutura e geração de empregos? Sem contar na indecência dos juros altos praticados por meia dúzia de iluminados que sentam-se à torre suprema do país para decidir o futuro de milhões de pessoas em zeros vírgulas percentuais.
Não foi a crise política que provocou a completa e bisonha inação do governo frente à morte da missionária Dorothy Stang, no Pará. Muita gente ainda está morrendo e vai morrer graças à liberdade que grileiros têm de andar naquele estado como andam nos quintais de suas casas: armados, ameaçadores e covardes.
Não foi a crise política que estamos vivendo que evitou que este governo tivesse um plano decente de segurança pública para os grandes centros urbanos que estão cada vez mais reféns da violência e da incompetência administrativa de governadores/governadoras, prefeitos e prefeitas.
Enfim, não foi a crise política que fez com que nós começássemos a pensar que este governo estava aquém do que se esperava. Foi um conjunto de ações que com o passar do tempo descambou, aí sim, numa crise política que nos faz ser nostálgicos com relação ao Collor e sua trupe.
Lamentavelmente cremos que a crise é fruto de desacertos anteriores e não somente do desejo de uns ou de outros em derrubar ou fragilizar este presidente que aí está. Havendo mesmo esse desejo, será que veríamos a blindagem extraordinária criada em torno do Ministro da Fazenda Antônio Pause? Não há desejo de desestabilizá-lo, mas que as denúncias (sem prova como foram as de Roberto Jefferson, e sabemos que na política a apresentação de provas não tem o mesmo peso que na questão jurídica), existem, existem. Mas todos são unânimes em dizer que o Ministro saiu-se bem na coletiva e as denúncias são águas passadas. Seriam águas passadas se tivéssemos hoje um modelo econômico distinto deste que aí está? É uma dúvida, como tantas outras que temos.
Infelizmente estamos enlutados. Enlutados pela Velhinha de Taubaté, enlutados pelo país e enlutados pela esperança que num momento de alegria e completo êxtase político-eleitoral foi apunhalada pelas costas e morta covardemente por uma gangue de mal-feitores. Uma lástima!!

Marcio Alexandre Martins Gualberto