Nele, que mereceu do acadêmico e africanista Alberto da Costa e Silva a qualificação de “interessantíssimo livro”, adotamos uma abordagem afrocêntrica. E isto quer dizer que estudamos o passado da África partindo da própria África e não de uma perspectiva européia, como sempre aqui se fez.
Para tanto, expandimos o conceito de “Antigüidade”, cujo termo final, em certos casos, não corresponde ao início da Idade Média européia. E isto porque muitas regiões africanas permaneceram “antigas”, mesmo após o advento do islamismo, no século VII a.D., tendo se desenvolvido fora do contexto árabe.
Justificando tudo isso, nossa Introdução diz o seguinte:
” A antropologia física eurocentrada povoa o passado africano de “raças” e “sub-raças” irreais. Assim – disse o antropólogo, lingüista, historiador e físico senegalês Cheik Anta Diop (1923-86) – a história que se escreveu sobre a África está repleta de citações a “negróides”, hamitas, camitas, etiopídeos, nilóticos, em nenhuma parte aparecendo a palavra “negro”. Busca-se sempre uma origem externa para os aportes civilizatórios que fecundaram o continente, restando apenas aos povos coletores e caçadores – pigmeus, bosquímanos, hotentotes etc – até hoje congelados em seus ambientes naturais, a condição de autóctones. Daí, a abordagem escolhida para este trabalho.
Como premissa básica do Dicionário, procuramos estabelecer o real significado de nomes como Axum, Cuxe, Etiópia, Kerma, Méroe, Napata, Núbia, Punt, Sabá, e mesmo Egito. Para tanto, partimos do princípio de que o nome “Núbia” referir-se-ía, como ainda hoje, a uma vasta região; que Cuxe teria sido um território delimitado geográfica, social e politicamente, ou seja, um país, dentro dessa região, a qual abrigou também os reinos da Etiópia (sub-região também chamada Abissínia); que Kerma, Napata e Méroe foram capitais cuxitas, esta última sediando mais tarde um poderoso estado imperial que acabou por lhe tomar o nome; e que, finalmente, a sub-região da Etiópia viu surgir em seu seio, nas proximidades do antigo reino conhecido como Punt, a cidade-estado de Axum, fundada por migrantes de Sabá, no atual Iêmen (ou no próprio território africano, como querem alguns historiadores), mais tarde também expandida em dimensões imperiais.
Outra premissa, sabendo-se que o nome “Etiópia” foi atribuído pelos gregos provavelmente a partir do século XIII AC e que o nome “Abissínia” tem origem árabe, foi procurar conhecer a denominação vernácula de cada uma dessas unidades talvez a partir do Egito, berço da mais antiga civilização no nordeste africano.
Os antigos egípcios chamavam “Ta-Seti” (“o país do arco”) à Núbia e “Ta-Neter” (“o país do sagrado”) à Etiópia. Já o nome “Kerma”, também de provável origem egípcia , seria o nome com que o Egito (ou Kemet, seu nome vernáculo) denominava o país de Cuxe, esta, por sua vez, uma denominação originariamente hebraica. Já o nome “Abissínia” tem origem, segundo consta, no sul da Arábia, sendo utilizado , então, a partir de 1000 AC, com a chegada de migrantes sabeus à região; migrantes esses que, aliás, tanto poderiam ter partido do atual Iêmen, a Arabia Felix dos romanos, quanto de mais próximo, uma vez que o nome Saba, como veremos no corpo deste Dicionário, parece designar duas regiões distintas”.
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Nei Lopes