Manhattan, Nova York – “E preciso viver malandro. Assim nao dá pra se segurar, não. A cana tá brava. E a vida tá dura. Mas um tiro só nao vai me derrubar não." (Vida Bandida – Lobão).

Sabotage – Um Bom Lugar (2013), do rapper Toni C., é a primeira biografia oficial de um rapper brasileiro (seus familiares não seguiram a cartilha ditada pelo cantor Roberto Carlos e os grandes ícones da MPB, e tentaram barrar a divulgação de sua biografia). É tambem a história da conturbada vida de Mauro Mateus dos Santos, conhecido como Maurinho nas favelas onde viveu seus 29 anos até ser assassinado na manhã do dia 23 de Janeiro de 2003, quando estava a caminho de Porto Alegre para fazer parte de uma programação promovida pelo Fórum Social Mundial.

Em 1973, o Brasil terminava aquilo que foi chamado de milagre economico (1969-1973). Foram seis anos de crescimento econômico responsável por tirar milhões de brasileiros da pobreza, e deixou outros milhões para trás. Com toda certeza a família do Maurinho foi uma das que não se beneficiou do tal milagre. Sua mãe, após receber todo cuidado e carinho do Hospital São Paulo durante o nascimento do seu terceiro e último filho, iria voltar para a favela, onde, oito anos depois Maurinho iria ser seduzido pela malandragem local.

Não há dúvida de que o cantor nasceu com o dom da comunicação. Desde criança mostrava uma habilidade incrível de colocar no papel ideias que seriam melhor definidas na adolescência quando passou a observar melhor sua condição social numa sociedade altamente extratificada como a de São Paulo. Morando numas das áreas mais nobres da cidade, o Brooklin, e ao mesmo tempo sem poder usufrir dos bens materiais que o modelo capitalista oferecia, Maurinho cresceu sabendo que, do outro lado dos canos de água da SABESP, a fartura reinava.

Sua mãe, uma empregada doméstica que mal sabia ler e escrever, e seu pai, um carroceiro e catador de papel, não tinham olhos para ver que aquele menino magrelo que ia crescendo rápidamente era uma mente brilhante e uma arma AK-47 com as palavras. Maurinho foi recrutado pelos traficantes locais aos 8 anos.

Sua história não foi muito diferente do pequeno Fernando Ramos da Silva, mais conhecido como Pixote, o pequeno ator do filme homônimo de 1981 dirigido pelo argentino naturalizado brasileiro, Hector Babenco. Assim como Maurinho, Fernando Ramos da Silva tambem cresceu numa favela. Aos 13 anos alcançou um sucesso jamais imaginado, e aos 20 anos estava morto em circunstância até hoje não esclarecidas.

A narrativa da biografia e rápida e certeira. Toni C., autor de outros livros sobre o movimento Hip Hop, e um contador natural de histórias. Sabotage sai das mais de 300 páginas como se estive ao nosso lado contando sua própria história. Nada escapa, nem mesmo suas prisões, seu envolvimento com o crack, a cocaína, a maconha, seu período na Febem, no Tatuapé, e sua ficha na polícia.

O livro mostra que há várias camadas sociais nas periferias da cidade de São Paulo. Porém, nada se iguala às favelas que se encontram nos extremos da cidade. Nestes lugares as relações sociais são baseadas, única e exclusimente, no medo. Em outras palavras, favores são feitos pelos “donos” dos locais, mas o preço cobrado em troca acaba sendo bem alto. Nestas áreas a presença forte do Estado só existe no aparato repressivo, composto por policiais que, na sua grande maioria, não estão capacitados para lidar com estes paióis de pólvora.

Sabotage sabia que sua vida estava íntimamentee ligada à favela. Ele sabia de muita coisa que jamais poderia falar para seu bem e tambem para o bem de sua família. Por algum tempo tentou convencer-se de que poderia frequentar estes dois mundos. Um, onde era visto como um artista de um carisma sem par, e o outro, o Maurinho andando sem camisa e fumando um baseado no seu habitat natural ao lado da malandragem. Sua morte deixou um enorme vácuo artístico e uma profunda tristeza nos corações daqueles que realmente o conheceram.

Sabotage – Um Bom Lugar – Toni C. – LiteraRua.com.br.

Viva Nova York

Bayard Rustin: Um tesouro Escondido

Nascido em Westchester, na Pensilvânia em 17 de março de 1.912, Bayard Rustin foi criado pelos seus avós maternos. Em 1937, aos vinte e cinco anos, mudou-se para o Harlem com o intuito de estudar na renomada Faculdade Pública de Nova York, chamada “City College”, onde juntamente com outros estudantes e ativistas ajudaria a defender os 9 jovens de de Scottsboro, acusados de estupros no Alabama, em  1931. Em 1941, Bayard Rustin começou a trabalhar com direitos civis e trabalhistas juntamente com A. Phillip Randolph, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários.

Um pacifista que seguia a doutrina da não violência praticada pelo indiano Mahatma Ghandi, Rustin recusou-se a servir ao Exército durante a II Grande Guerra. Por esta razão, entre 1944 e 1946, ficou preso na penitenciária federal de Lewisburg, na Pensilvania, onde organizou um protesto contra a separação de áreas para comer entre negros e brancos.

Em 1956, Bayard Rustin chegou a Montgomery, no Alabama para aconselhar o pastor Martin Luther King Jr. nas táticas de não violência de Ghandi. Com Martin Luther King, Rustin criou a organização para a luta dos direitos civis Sourthern Christian Leadership Conference (Trad. Livre – Conferência da Liderança Cristã do Sudeste).

Dias antes da Marcha para Washington, em Agosto de 1963, políticos e oponentes do movimento pelos direitos civis pressionaram seus lideres, MLK, Joy Wilkins, A. Philip Randolph, e Whitney Yong para se livrarem do principal organizador, Bayard Rustin, ou correriam o risco de enfrentarem  um escândalo nacional. Um arquivo comprometedor do FBI sobre ele foi vazado para a mídia. Os organizadores sabiam que Rustin era homossexual, um pacifista e tambem comunista convicto.

Alguns, no movimento não aprovavam sua homossexualidade, tampouco sua ideologia política, mas todos concordavam que como estrategista e organizador, Bayard Rustin era a pessoa mais qualificada para organizar a Marcha para Washington.

Apesar da pluralidades de opiniões sobre ele, A. Philip Randolph práticamente falou por todos os líderes quando perguntado se o arquivo do FBI levaria a resignação de Bayard Rustin ou sua demissão “Não", respondeu.  “Bayard Rustin é o próprio Mr. Marcha para Washington", acrescentou.

Bayard Rustin nunca alcançou o reconhecimento de outros líderes na luta pelos direitos civis dos afro-americanos. Ele sempre articulou suas ideias e pensamentos de forma que seu nome ficasse fora dos holofotes. Bayard Rustin faleceu, aqui em Nova York, em 1987.

Tudo isto, e muito mais, aprendi na exposicao sobre Bayard Rustin apresentada na Biblioteca Pública Schomburg.

Viva Nova York II

Gordon Parks: 100 Moments (Gordon Parks :100 Momentos) celebrou o fotógrafo/diretor/ensaísta e ativista que tranformou a história visual dos EUA com suas lentes inquisitivas mostrando, principalmente, o período dos anos 40. As fotos foram tiradas nas cidades de Nova York e Washington com uma enorme população de afro-americanos, mostra as profundas mudanças migratórias durante uma época fundamental da história dos EUA. Assim como Chicago, Nova York e Washington foram tambem dois importantes destinos dos afro-americanos após o final da Segunda Grande Guerra, em 1945.

As fotos tiradas nestas duas cidades que estavam passando por um enorme período de transformação migratória mostram a expansão da mídia negra, a preocupação com a educação infantil, a profunda segregação e a discriminação econômica.

 

Edson Cadette