Ao completar dez anos de trabalho ininterrupto a Afropress resgata e atualiza a importante trajetória de lutas dos movimentos sociais negros no Brasil e também no mundo. Através de seu trabalho sério e comprometido com a busca da valorização da identidade, cultura e história dos afro-brasileiros, e do combate ao racismo e à desigualdade racial, a Agência Afroétnica de Notícias Afropress construiu um relevante espaço de expressão para a comunidade negra.

Fruto dos anseios de um grupo, inicialmente pequeno, de militantes que apostaram na construção de uma sociedade mais justa, a Afropress reflete e amplia na contemporaneidade o longo caminho percorrido pela imprensa negra.

Assim como nos primeiros jornais escritos pelos negros, as matérias primas de trabalho da agência são a luta e a notícia, mas agora aliada à busca de brechas para comunicar com a sociedade em geral, uma vez que as desigualdades e o racismo são problemas de responsabilidade de todos os cidadãos.

É importante ressaltar aqui o papel da comunicação e do sistema midiático de um modo geral, que são importantes elementos de ampliação e visibilidade do espaço público, de construção e reconstrução de valores, identidades, e visões de mundo. Desse modo, a inserção de temas e imagens positivas do negro na mídia é fundamental na construção de novas representações, e na desconstrução de estereótipos e preconceitos, através da informação e de novos referenciais.   

A experiência da Afropress, enquanto projeto que utiliza a comunicação como elemento estratégico de atuação, é diferenciada. Além de exercer a função de mídia jornalística engajada na promoção da igualdade racial e na luta contra o racismo, a agência é mais do que isso, pois acabou se tornando também uma via de empoderamento, na medida em que dá visibilidade às agendas de luta, mas também busca implementar ações efetivas de intervenção social para o combate ao racismo.

Ao longo de seu percurso, o trabalho da agência foi delineando uma representação do negro como cidadão protagonista das mudanças, que reivindica seus direitos e se opõe ao preconceito e às desigualdades. Assim, se afasta a perspectiva de vitimização, e se investe na luta por um projeto de cidadania que vai além da exigência de igualdade de condições socioeconômicas, buscando também o respeito à diferença e a valorização da cultura e história dos afro-brasileiros. Enfim, o resgate de uma importante face da identidade do Brasil.

Os desafios enfrentados pela equipe da Afropress para manter o projeto em funcionamento serviram para potencializar e fortalecer o papel da agência, que cada vez mais expande sua rede de colaboradores e leitores. Isso em um momento em que os movimentos sociais negros consolidam relevantes conquistas, como, por exemplo, a implementação do sistema de cotas nas universidades; mas, por outro lado, se torna mais constante a divulgação na mídia de casos de discriminação racial. Muito já foi feito, porém o caminho a ser percorrido em direção à igualdade e ao respeito ainda é extenso.

Desse modo, desejo vida longa à Afropress, parabenizo a equipe, e agradeço profundamente a oportunidade de ter podido acompanhar mais de perto seu trabalho comprometido, e de revigorar meu entusiasmo de militante e minha fé na construção de uma sociedade melhor.     

P.S. A autora obteve o doutorado pela Universidade do Rio dos Sinos, de Porto Alegre, com a tese “Usos da Internet nos Movimentos Sociais Negros em Rede na Luta pela Igualdade Racial: Estudo de caso da Agência Afropress”.

 

 

Leslie Sedrez Chaves

Leslie Sedrez Chaves