Berlim – Enquanto, no Brasil, a adoção de ações afirmativas e cotas para negros e indígenas por 350 anos de escravidão e 506 de genocídio e racismo, encontram forte resistência das elites, a Alemanha encerrou esta semana a dívida com os sobreviventes do regime nazista pagando R$ 11,8 bilhões (cerca de 4,4 bilhões de Euros), de um total de R$ 180 bilhões (cerca de 67 bilhões de Euros), como indenização pelos crimes cometidos durante os sete anos de duração do nazismo.
A chanceler Angela Merkel considerou que os pagamentos são “apenas uma indenização simbólica” perante o sofrimento de “milhões de pessoas que não sobreviveram ao martírio e aos outros que o fizeram, mas com conseqüências físicas ou psíquicas que permanecem até hoje”. “O dinheiro não pode compensar a dor infligida, mas é um reconhecimento moral da responsabilidade sobre milhões de vítimas”, disse esta semana o presidente alemão, Horst Köhler, em um ato no Palácio de Bellevue.
Köhler e Merkel encerram assim a iniciativa criada em 1998 pelo então chanceler Gerhard Schröder para saldar a dívida tardia com os antigos trabalhadores forçados, entregues pelo regime nazista a indústrias, bancos “e até hospitais e instituições sociais”, lembrou o presidente.
“Muitos alemães tiraram proveito voluntária ou involuntariamente do trabalho desses escravos”, disse Köhler. O presidente ressaltou que esta não foi uma prática “isolada” de alguns consórcios ou empresas, mas de todo o complexo industrial alemão.
Calcula-se que, sob o nazismo, 10 milhões de trabalhadores foram forçados a trabalhar como mão de obra escrava preferencialmente na indústria armamentista, mas também em outros tipos de instituições, incluindo a Igreja.
Desse total, 1,665 milhões sobreviveram, na sua maioria em territórios da antiga União Soviética.
Os grupos de vítimas de outras partes do mundo tinham sido indenizados por meio de diferentes pacotes negociados durante o pós-guerra e em anos posteriores com as potências aliadas, Israel e a maioria dos países europeus, incluindo a Polônia. A grande maioria de sobreviventes do Leste Europeu, no entanto, ficou de fora, até que surgiu esta iniciativa, canalizada pela Fundação Lembrança, Responsabilidade e Futuro, criada em 1999.
“A indústria demorou a levar o problema a sério”, admitiu Manfred Gentz, o representante da indústria na fundação. A partir daí, foi aberto um processo de “análise científica” do passado e dos vínculos com o nazismo, assumido “pela maioria dos consórcios”, acrescentou Gentz.
Negociações
A Fundação Lembrança, Responsabilidade e Futuro iniciou um longo processo de negociações com o ex-ministro da Economia e presidente de honra do Partido Liberal Otto Graf Lambsdorff, marcado por sucessivas controvérsias e novos obstáculos.
Com a iniciativa já em andamento, na qual inicialmente estiveram englobados doze grandes consórcios industriais, surgiu o temor entre as empresas envolvidas de que tal reconhecimento de culpa gerasse uma onda de demandas coletivas procedentes dos Estados Unidos.
Após complexos procedimentos, e ainda sem garantias absolutas de que isso não ocorrerá, se pactuou inicialmente um pacote de € 5,1 bilhões, dos quais a metade foi assumida pelo Estado e o resto, pelas empresas envolvidas.
Os antigos escravos do nazismo receberam entre € 2.500 e € 7.500, conforme o período e as tarefas que se viram obrigados a realizar.
As quantias começaram a ser liquidadas em 2001, através de sete organizações, entre elas a Jewish Claims Conference e várias fundações em Rússia, Ucrânia e Belarus.
Em nome da Jewish Claims Conference, e também das vítimas, o sobrevivente do gueto de Varsóvia, do campo de extermínio de Auschwitz e ex-escravo do nazismo Noah Flug falou no Palácio de Bellevue.
Flug ressaltou a impossibilidade de “compensar com dinheiro” os sofrimentos dele, da esposa – também presente no auditório – e de todos aqueles que passaram pelo calvário.
O sobrevivente, no entanto, agradeceu a “excepcional” tarefa de confronto com o passado realizada pela Alemanha atual.

Da Redacao