Porto Alegre/RS – Pressionada pelo Carrefour que dias antes lançou mão de estratégia desleal contra si e os seus advogados para desacreditá-la perante a opinião pública, Milena Borges Alves, viúva de Beto Freitas, morto após ser espancado barbaramente por seguranças do Carrefour de uma loja da Zona Norte de Porto Alegre, no dia 19 de Novembro de 2020, véspera do Dia Nacional da Consciência Negra, concordou em assinar acordo com o hipermercado, na última quinta-feira, 27 de maio, encerrando o caso da indenização devida pelo assassinato do marido.

Segundo os advogados, Carlos Barata e Hamilton Ribeiro, a viúva já “estava muito desgastada”, passados mais de cinco meses desde que assistiu o marido ser morto por espancamento por dois seguranças, um dos quais integrante da Brigada Militar gaúcha, sendo impedida de prestar socorro.

Os valores da indenização não foram revelados, graças a uma cláusula de confidencialidade, porém, estima-se que variaram entre R$ 1,1 milhão e R$ 5 milhões, incluídos os demais oito membros da família de Beto Freitas, inclusive, o pai.

“Não foi o que a gente pediu, nem foi o que a gente achava justo. Eu acho que o justo seria o Carrefour pagar uns R$ 15 a R$ 20 milhões para a Milena porque o Carrefour dilacerou a vida dela. Vai o resto da vida dela levar isso aí, um trauma que é praticamente intransponível. Mas, vamos lá. A batalha pelo menos agora com o Carrefour encerrou, essa parte da Milena”, acrescentou Ribeiro.

Há menos de um mês, o Carrefour depositou R$ 1,1 milhão na conta da viúva, como estratégia de retaliação aos advogados por não terem aceitado os mesmos valores pagos pela morte da cadela Manchinha, em novembro de 2.018, em Osasco, S. Paulo.  Além de tornar público o depósito, o Carrefour ainda divulgou nota considerada difamatória e injuriosa pelos advogados.

“FIZEMOS O POSSÍVEL”, DIZ DEFESA

Ribeiro e Barata acabaram por aceitar a proposta evitando a judicialização do caso, temerosos de que a Justiça decidisse por valor ainda menor do que o proposto no acordo. “Foi uma luta, não inglória, acho que a gente fez o possível com o que a gente tinha. Mas uma vez, ficou evidenciado prá mim, não é só uma questão mundial, essa questão dos grandes conglomerados, do poder econômico. O poder econômico dita as normas para o Estado. O Estado, na verdade, ele é apenas um reflexo, as leis do Estado, os poderes do Estado, são o reflexo de quem demanda o poder, o capital. Essa é a minha visão. Não sou dono da verdade, mas cada vez que a gente se depara com uma situação dessas, a gente vê quão forte é o poder do dinheiro. O poder do dinheiro é avassalador”, acrescentou Ribeiro.

Os advogados tentaram por meses forçar a empresa a elevar o valor da indenização, lembrando que, nos EUA, a família de George Floyd, o homem negro morto por um policial branco, fez acordo com o Estado de Minneapólis, em que aceitaram receber US$ 27 milhões – o equivalente a R$ 152 milhões de indenização.

“A Milena pediu para encerrar porque estava muito desgastada já. Cada semana que passa, cada vez que ela tem que mexer na ferida é um problema. Estava muito desgastante para ela desde novembro isso, não acaba nunca essa história, então a gente resolveu liquidar isso”, afirmou o advogado.

PROCESSO CONTRA EMPRESA DE SEGURANÇA

O advogado anunciou que a defesa entrará com processo contra a Vector, responsável pela contratação dos dois seguranças que estão presos respondendo a processo por homicídio triplamente qualificado – Giovane Gaspar da Silva e Magno Braz Borges.

Também antecipou que entrará com um processo por danos morais contra o Carrefour “por constrangimento, calúnia e difamação” pelo fato da marca francesa, no mês de abril, ter acusado a defesa de dificultar a negociação e que teria cobrado honorários acima da tabela da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), acusação que Ribeiro e Barata denunciam como falsa e caluniosa.

Em nota publicada sobre o acordo firmado com Milena, o Carrefour valorizou a conclusão das indenizações destinadas à família de João Alberto. Além da viúva, a rede também fez acordos com outros oito familiares – quatro filhos, uma enteada, uma neta, uma irmã e o pai de João Alberto.

“Desde o primeiro momento, nossa principal prioridade foi dar o suporte necessário para os familiares, na parte psicológica e financeira. Conseguimos avançar rapidamente nos acordos com todos os familiares e hoje concluímos o último acordo com a senhora Milena”, afirmou João Senise, vice presidente de RH do Carrefour.