São Paulo – Convidada para representar a família e o marido João Alberto Silveira Freitas, na homenagem póstuma anunciada pelos organizadores do Troféu Raça Negra, a viúva Milena Freitas foi “esquecida” no aeroporto Salgado Filho pela organização do evento.

Beto Freitas, espancado até a morte por seguranças do Carrefour, em novembro do ano passado, foi anunciado na propaganda do evento como símbolo da luta contra o racismo estrutural.

O Troféu Raça Negra reúne costumeiramente líderes empresárias, autoridades dos Poderes da República e celebridades do mundo artístico e da TV como as cantoras Martinália e Preta Gil.

Os mestres de cerimônia da edição deste ano realizada na Sala São Paulo – um dos espaços mais nobres da capital paulista – foram a jornalista Glória Maria e o ator Paulo Betti, ambos da Globo.

Promovido pela Faculdade Zumbi dos Palmares e ONG Afrobras tem, entre seus patrocinadores os bancos Bradesco e Santander, a Avon e a Coca-Cola. Em edições anteriores já teve patrocínio do Carrefour, como em 2009 e 2014.

Falta de suporte e apoio

A falta de suporte e de apoio, segundo os advogados da família, Carlos Barata e Hamilton Ribeiro, fizeram com que Milena acabasse por perder o vôo, mesmo tendo chegado por volta das 5h24 da manhã no Aeroporto Salgado Filho.

Cansada, ela decidiu voltar para casa em companhia da filha que a acompanharia na vigem a S. Paulo.

Falta de sensibilidade e cuidado

Cobrada a dar explicações a produção do evento culpou a viúva  por ter chegado atrasada e feito alteração no check-in que causou um custo de cerca de R$ 45,00, não conseguindo embarcar.

“A convidada não avisou à instituição que precisava de R$ 45,00 para pagar, nem mesmo que havia feito alteração. Também não vinha sozinha, estava acompanhada de sua filha, de 21 anos”, foi a desculpa da Nota divulgada pela assessoria de imprensa.

Além de culpar a viúva, a Nota tenta transferir a responsabilidade pelo não embarque aos advogados. “Sobre o escritório de advocacia não ter enviado alguém para assessorar sua cliente no aeroporto, não é de nossa alçada”, acrescenta.

Nas tratativas  com o o advogado Carlos Barata, porém, a produção garantiu que a conselheira Deise Nunes havia sido escalada em nome da organização do evento para acompanhar Milena de Porto Alegre até S. Paulo.

A ex-miss Brasil, porém, não foi vista no Salgado Filho.

Verdade

Segundo os advogados Barata e Hamilton  Ribeiro, a versão da instituição ao tentar transferir a culpa para viúva, expõe a total falta de cuidado e sensibilidade com uma pessoa simples, ainda exposta ao profundo trauma da perda do marido que ela testemunhou sendo impedida de socorrê-lo dos algozes.

Os advogados destacaram ainda que a organização não aceitou que o advogado Dojival Vieira, do Coletivo Cidadania, Antirracismo e Direitos Humanos, que os representaria no evento, diante da impossibilidade da presença da viúva, os substituísse.

Na Nota, a Zumbi tentou justificar a ausência de qualquer menção ao ocorrido e insiste: “O prêmio é pessoal e intransferível. Em nenhum momento foi citado no evento, pois era uma surpresa para o público. Como a Sra. Milena não compareceu, não havia motivos para explicação” , acrescenta.

Briga com a verdade

A Zumbi insiste que, “em nenhum momento foi divulgado por parte da instituição, a homenagem e entrega do prêmio ao Beto e família. Nem na imprensa, nem no evento”.

A Afropress apurou que a informação é rigorosamente falsa. Em todo o material da premiação divulgado na mídia e nas redes sociais, como o da foto ao lado,  Beto Freitas aparece, inclusive, na manchete do site de propaganda do prêmio e no Instagram. “Família de Beto Freitas recebe troféu em seu nome”.