Tendo Jean-Marc Ayrault como primeiro-ministro, o novo governo empossado em 15 de maio assenta numa estrita paridade de gêneros prometida durante a campanha de Hollande: 17 homens e 17 mulheres numa lista de 34 ministros, 17 dos quais são juniores. É a primeira vez que esse balanço numérico de homens e mulheres está presente num gabinete francês.
Para além da juventude (7 ministros com idades abaixo dos 40) e da paridade de gêneros, o detalhe mais importante na composição do novo governo socialista gaulês talvez seja o da inclusão de 7 pessoas originárias da imigração e de minorias étnicas ditas visíveis.
O detalhe mostra uma clara determinação do novo executivo em espelhar a diversidade multicultural e multirracial do país da revolução com o lema assente em valores de liberdade, igualdade e fraternidade aos quais Hollande, no seu discurso de vitória na noite de 6 maio, acrescentou o alto valor da dignidade humana. A composição do seu governo vinca outro valor não menos importante: a diversidade.
As sete faces da diversidade oriundas das minorias étnicas francesas são maioritariamente de origem afro-caribenhas e norte-africanas. Destaque também para Fleur Pellerin, 38, uma tecnocrata nascida na Coreia do Sul e adoptada aos seis anos de idade por uma família francesa.
Foi nomeada ministra júnior para as Pequenas e Médias Empresas, Inovação e Economia Digital.
De acordo com alguma imprensa gaulesa, a sua nomeação foi uma forma de testamento da tolerância francesa em contraste com a discriminação contra os filhos de imigrantes naquela nação asiática.
Taubira faz história
Mas, de entre os nomeados originários das minorias, o grande destaque vai sem dúvida para Christiane Taubira, 60, uma das três faces negras do novo governo.
Nomeada titular do Ministério da Justiça, a terceira pasta de maior importância protocolar na administração francesa, de acordo com o jornal Le Figaro, ela é a única mulher a ocupar o mais alto posto na recém inaugurada administração.
Membro do Partido Radical de Esquerda (PRG), uma pequena legenda que fez um acordo com o Partido Socialista para as eleições legislativas e presidenciais de 2012, ela é legisladora desde 1993 em representação da Guiana Francesa, onde nasceu de uma família pobre.
Deputada ao Parlamento Europeu de 1994 a 1999, a ministra Taubira entra gloriosamente para a história da V República Francesa como a primeira pessoa negra a ocupar o mais elevado posto de sempre num governo francês.
Divorciada e mãe de quatro filhos, ela tem um doutorado em Economia e Agronegócios bem como graduações em Sociologia e Etnologia Africana-Americana. É autora da chamada ”Lei Taubira”, histórico documento discutido, votado e aprovado em 10 de maio de 2001 na Assembleia Nacional francesa que reconhece o comércio de escravos e a escravidão como crimes contra a humanidade.
Além Christiane Taubira, os outros dois ministros negros do gabinete de Hollande são a socialista George Pau-Langevin, 64, nascida em Guadalupe, nomeada ministra júnior para o Sucesso Educacional e Victorin Lurel, 51, igualmente socialista e também nascido na mesma ilha caribenha, novo ministro titular da pasta dos Departamentos Ultramarinos.
A escritora de origem italiana Aurélie Filippetti, 38, nova ministra da Cultura, a cineasta franco-argelina Yamina Benguigui, 55, ministra júnior responsável pelos Expatriados e Assuntos Francófonos e a franco-marroquina Najat Vallaud-Belkacem, 34, porta-voz do governo e responsável pelo recém-criado Ministério dos Direitos da Mulher, completam o leque oriundo de algumas minorias étnicas representadas no novo executivo parisiense.
A linha da frente
A par do Reino Unido, a França está agora na linha da frente da diversidade política na Europa. Nenhum outro país do velho continente com uma ”larga” presença de população negra em resultado do seu passado imperial e colonial teve negros assim representados no topo da governação. As estimativas de algumas fontes apontam de 1.5 a 3.5% de negros franceses numa população que já passou de 65 milhões. Todavia não existem dados estatísticos oficiais quanto a essa percentagem por, na França, ser ilegal a recolha dos mesmos com base em raça e etnicidade.
Lembre-se que os governos trabalhistas britânicos de Tony Blair (Paul Boateng, na pasta do Tesouro) e Gordon Brown (Valerie Amos, no Desenvolvimento Internacional) foram os primeiros a ter negros nos mais altos postos da governação. O próprio governo conservador de Nikolas Sarkozy teve uma negra mas no escalão ministerial júnior apenas. Trata-se da franco-senegalesa Rama Yade, a midiática advogada dos direitos humanos nomeada em 2007, com 30 anos de idade apenas, secretária de Estado dos Estado dos Negócios Estrangeiros e dos Direitos Humanos.
Yade, em 2009 secretária de Estado dos Desportos, foi a mais jovem integrante de um governo francês na V República. Neste último cargo obteve o maior índice de aprovação (70%) entre os membros da ex-administração Sarkozy, o que fez dela a segunda figura política mais popular em França, superada apenas pelo antigo presidente Jacques Chirac, de acordo com o jornal inglês The Guardian, citando uma sondagem da revista Paris Macth de junho de 2010.
A França está escrevendo a sua nova História. Vive la France!

Alberto Castro