Rio – Uma sátira à sociedade moderna brasileira e a repetição de padrões pós-coloniais, um estudo sobre as relações entre “patrões” e “empregados”, “dominantes” e “dominados” e suas posições sociais. Assim, a diretora Sabrina Fidalgo define “Personal Vivator”, curta metragem que terá pré-estréia nesta quinta-feira (15/08), no Cine Odeon, no Rio. O filme é estrelado pelo ator Fabrício Boliveira, que fez o João de Santo-Cristo, do filme Faroeste Caboclo, inspirado na música homônima de Renato Russo, entre outros trabalhos para o cinema e para a televisão.

Sabrina, que é filha de Ubirajara Fidalgo, um ícone da dramaturgia negra no Brasil, já morto, disse que escreveu o roteiro do Personal Vivator a partir de um post em sua página no Facebook, ao final de um dia estressante. “Era algo do tipo, “estou cansada, não estou dando conta de fazer tudo, preciso de um personal vivator”, conta.

Ela acrescenta que, pouco depois surgiu uma notícia de um blog de uma certa maternidade paulistana onde uma mãe dondoca “ensinava” e dava “dicas” a outras mães dondocas de como “proceder” com suas babás. “Era algo muito cínico, muito sórdido, muito inumano. Tudo aquilo foi me indignando de tal maneira que tive que largar o que estava fazendo para escrever sobre isso”, lembra.

Roteiro

No filme Rutger (Fabricio Boliveira) é um ser extraterreste que tem a missão de passar 72 horas na Terra para pesquisar o comportamento humano. Para evitar suspeita ele se disfarça de “documentarista” e escolhe a cidade do Rio de Janeiro para iniciar a pesquisa. O que ele não espera é que os personagens de seu filme possuam o que ele chama de “personal vivators” – seres humanos cuja função é servir outros seres humanos financeiramente mais abastados.

Além de Fabrício, estão no filme, Ana Chagas, Ana Flávia Cavalcanti, Márcio Rosário, Kaila Fischer, a própria Sabrina, Brenda Oliveira, Ricardo Lopes, Ainá Garcia e Tassia Nicolsky.

Na entrevista a Afropress, Sabrina falou do filme e do momento em que vive o país, após os protestos de junho. “Nunca antes tive tanta certeza de que deveria ficar no brasil como agora. Quero participar de toda a mudança de paradigma na política e na midia ocasionados pela onda de protestos que começou em junho. Tenho participado das manifestações aqui no Rio e tudo me interessa", afirmou.

Veja, na íntegra, a entrevista.

Afropress – Como surgiu a idéia do filme? 

Sabrina Fidalgo – Foi no final do ano passado. Na verdade eu estava desenvolvendo um outro roteiro para um outro curta que acabou sendo atropelado por esse. Foram dois eventos que me inspiraram a escrever o roteiro do filme e, consequentemente, realizá-lo. Primeiro, escrevi um post espontâneo no Facebook num dia estressante e no final cunhei esse termo "personal vivator". Era algo do tipo, "estou cansada, não estou dando conta de fazer tudo, preciso de um personal vivator". Fui ali e quando voltei o post estava com umas cinquentas "curtidas", uns vinte comentários e uns dez compartilhamentos e todo mundo falava que o termo "personal vivator" era sensacional. Fiquei intrigada pensando nisso por um bom tempo. 

Segundo, pouco tempo depois surgiu uma notícia viral de um tal blog de uma certa maternidade paulistana onde um mãe dondoca "ensinava" e dava "dicas" a outras mães dondocas de como "proceder" com suas babás. Era algo muito cínico, muito sórdido, muito inumano. Pós-colonialismo gritando na cara da sociedade. Daí logo surgiram vários outros links de matérias parecidas e fotos de celebridades e suas babás de branco nas praias do Rio. Tudo aquilo foi me indignando de tal maneira que tive que largar o que estava fazendo para escrever sobre isso. Dai pensei "claro, as babás, as empregadas, os porteiros, os motoristas, os manobristas…todos são os "personal vivator". Fois assim que começou.

Afropress – Quando será a pré-estréia? 

SF – O filme é uma co-produção entre a minha produtora, a Fidalgo Produções, e a Cavideo do Cavi Borges. A Cavideo é famosa por produzir vários e ótimos filmes com baixo orçamento, eles tem esse "know-how". Dai que que agora, dia 15/08, no Cine Odeon (Rio), haverá uma noite de pré-estreias dos novos curtas da Cavideo, entre eles, o nosso "Personal Vivator".

Afropress – Tem previsão de colocá-lo em festivais? Quais? 

SF – Sim, estamos inscrevendo o filme em festivais e a Cavideo também vai fazer a distribuição. Festivais são enigmas, a gente nunca pode ter ceteza. Só nos resta torcer para dar certo. Por enquanto, não temos a estréia mundial confirmada, mas adoraria se fosse aqui no Rio.

Afropress – O filme entrará em circuito comercial? Quando?

SF – Curtas fazem carreiras em mostras, festivais, exibições em cineclubes, mas não existe um circuito comercial para esse segmento. Depois de percorrer festivais e mostras o destino é o licenciamento em TV a cabo e na internet mesmo.

Afropress – Por último: como está vendo e acompanhando o atual momento?

SF – Estou acompanhando com interesse total o atual momento. Nunca antes tive tanta certeza de que deveria ficar no Brasil como agora. Quero participar de toda a mudança de paradigma na politica e na mídia ocasionados pela onda de protestos que começou em junho. Tenho participado das manifestações aqui no Rio e tudo me interessa. Me interessa mostrar que o poder esta em nossas mãos e que temos força para mudar o status quo inteiro, sim!

Da Redação