S. Paulo – O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, se reuniu nesta quarta-feira (02/09) durante cerca de duas horas com Januário Alves de Santana – o funcionário da USP vítima de tortura com motivação racial, na loja da Rede Carrefour de Osasco, suspeito, no início do mês passado, de roubar o próprio carro, um EcoSport.
O encontro, realizado das 15h às 17h, no Escritório da Presidência da República, na Avenida Paulista, serviu para demonstrar o repúdio à violência e expressar solidariedade a Santana, em nome do Governo.
Além do ministro e de representantes do Movimento Negro, estiveram presentes o presidente da Comissão do Negro e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB/SP, Marco Antonio Zito Alvarenga, o coordenador da Frente Parlamentar pela Igualdade Racial, deputado Vicente Cândido, o reitor da Unipalmares e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico, José Vicente, Roseli de Oliveira, da Coordenação de Políticas para a População Negra e Indígena do Estado, e Ivan Seixas e Adriana Lochi, do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE).
O prefeito de Osasco, Emídio de Souza, foi representado pela Coordenadora da Igualdade Racial da Prefeitura, a assistente social Zélia Lucas Patrício.
Os participantes destacaram que o encontro foi um marco histórico: foi a primeira vez que um ministro de Estado, diante de um caso de agressão racista, tomou a iniciativa de assumir a defesa e a solidariedade à vítima.
Santana, oito quilos mais magro e ainda se recuperando da cirurgia a que foi submetido na semana passada, estava acompanhado da mulher, Maria dos Remédios Santana, e dos advogados, Silvio Luiz de Almeida e Dojival Vieira.
Solidariedade
O ministro começou por dizer a Santana: “Você não está sozinho”, acrescentando que “a questão da solidariedade se faz necessária e é importante num momento como esse”. Ele garantiu que já determinou a Ouvidoria da Seppir o acompanhamento das investigações até que os responsáveis sejam identificados e condenados com base na Lei. “Esse caso deve servir de exemplo. A sociedade brasileira não tolera mais isso”, afirmou.
O deputado Vicente Cândido disse que Assembléia está acompanhando as investigações e anunciou que a Frente Parlamentar vai acompanhar o caso até a punição dos culpados.
Já Ivan Seixas, presidente do Condepe, e coordenador da Comissão de ex-presos políticos contou a sua experiência de torturado durante a ditadura. “Eu sei bem, Januário, o que os torturadores te fizeram porque já passei pela experiência da tortura”. Ivan disse que é preciso acabar com a prática da tortura que antes era utilizada contra militantes políticos e hoje é aplicada contra os pobres e, em especial, contra negros.
Falaram ainda o reitor José Vicente, o presidente da CONAD. Segundo Zito, a OAB paulista – que já divulgou Nota de Repúdio assinada pelo presidente Luiz Flávio Borges D’Urso – está em permanente contato com os advogados de Santana e “totalmente solidária em tudo o que for feito para que se faça Justiça”.
A Professora Roseli de Oliveira destacou que o Secretário Luiz Antonio Marrey, da Justiça, vem acompanhando o caso com muito interesse. Ela anunciou que na próxima semana, Marrey receberá Santana no seu gabinete para prestar solidariedade em nome do Governo do Estado.
Relato
Com a mão direita sobre a face direita – lado que passou por cirurgia para corrigir fratura – Januário Santana acompanhou atentamente a reunião. “Um amigo me disse que o pior já passou, mas eu acho que não passou porque se a gente não fizer nada, isso vai acontecer com outras pessoas e isso é muito desumano”.
Mesmo se mostrando ainda abalado com tudo o que aconteceu, ele tem esperança. “Meu desejo já está acontecendo. Com a mobilização de todas essas pessoas, espero que possa mudar o tratamento de ser humano para ser humano”, afirmou.
Os advogados Dojival Vieira e Silvio Luiz de Almeida ressaltaram a importância do encontro da vítima com o ministro e lembraram a relevância da solidariedade política do Estado. Eles afirmaram ainda que a mobilização serve para sinalizar à sociedade brasileira que “casos como esse nunca mais se repitam”.
No final, o ministro fez um pedido a Santana. “Não venda o seu carro. O Brasil deve se acostumar com essa nova realidade”, afirmou, numa referência à inclusão dos negros ao mercado e às declarações do funcionário da USP de que pretendia vender o EcoSport, que tem sido o pretexto para a constante suspeição por parte da Polícia.
Edson Santos, que no mês que vem participará da Semana da Consciência Negra em Paris, anunciou que falará do caso na sua palestra e prometeu conversar com os ministros Paulo Vanuchi, da Secretaria dos Direitos Humanos, e Tarso Genro, da Justiça, no sentido de uma maior fiscalização das empresas de segurança.

Da Redacao