Como líder político, as intervenções de Frei David, até aqui, deixaram – e muito – a desejar: resultaram em soma zero, quando não em retrocessos. Basta lembrar que, da última vez que se meteu em articulações desse tipo foi para sacramentar um acordo chapa branca anunciado pelo ministro Fernando Haddad, em nome do Governo, que projetava para o distante ano de 2.012 a implementação da lei de cotas, o que representaria a negação do avanço prestes a ser conquistado agora, caso o Governo tivesse levado à sério o seu próprio calendário.
Relembremos:
Em março de 2.006, o frei franciscano foi o principal protagonista da controvertida reunião no Ministério da Educação, após a qual o ministro Fernando Haddad anunciou o consenso em torno da proposta de que o projeto de Lei 73/99 – o mesmo que acaba de ser votado na Câmara e está no senado – seria implantado gradualmente no prazo de seis anos.
Na época, quando a pauta da reunião veio à luz e revelou-se o papel que teve no acórdão chapa branca, o Frei queixou-se, em longa entrevista aqui postada, de ciúmes de setores do Movimento Negro incomodados com o crescimento da Educafro. Nós, da Afropress, em Editorial de 28 de março “Uma Causa e dois equívocos”, registramos o equívoco do tal consenso sacramentado e os métodos usados.
E não estávamos sós. A historiadora carioca de Relações Raciais, Wania Sant’Anna, foi contundente ao dizer não ter Frei David – com toda a respeitabilidade de que goza merecidamente – o direito de fazer negociações dessa natureza. “O Frei está errado, a Educafro está errada e não vamos nos esquecer de um fato importante: por todo o país, diversos grupos, têm discutido novas formas de ingresso nas universidades públicas e esses grupos devem, sim, ter o direito de se manifestar”, diria Sant’Anna, a Afropress em 23 de fevereiro de 2.006. “Os tais seis anos são um desestimulo, um desrespeito, uma desmobilização dos esforços empreendidos até agora. Chega de manipulação, chega de auto-vangloriar a sua prática esculhambando a prática dos demais”, acrescentava uma Wânia indignada.
A falta de talento do Frei – que há mais de um ano havia se recolhido à uma paróquia de Luzerna, interior catarinense, oficialmente por motivos de saúde – como líder político, de tão óbvia, está próxima de algo impensável no Movimento Negro brasileiro: consenso em torno de alguma coisa. Já foi demonstrada mais de uma vez.
David parece ter verdadeira compulsão por holofotes e por mídia e não se contenta de já ter adquirido o status de celebridade nacional, com dezenas de títulos de Cidadão Honorário concedidos por Câmaras de Vereadores de todo o país. Tais honrarias, mercê das inegáveis virtudes e do que representa como líder religioso, não se traduziram em menos parcimônia na ocupação do espaço midiático. Ao contrário.
Basta que se acendam as luzes e lá está ele, a fazer declarações sobre qualquer tema relacionado à questão racial, quando não faz parecer ao interlocutor desinformado que fala pelos 49,5% da população negra brasileira e que se está diante do inconteste líder político da metade negra do país.
Nada mais enganoso. O Frei não fala por entidade nenhuma a não ser a sua própria – a Educafro – que, a despeito da importância que tem, é apenas mais uma das centenas, quem sabe, milhares de entidades, organizações, articulações e agrupamentos – não representa, em absoluto, a totalidade dos negros brasileiros como, aliás, nenhuma outra entidade e ou organização representa.
Não se lhe negue a boa fé, mas, às vezes soa ingênuo que não perceba que o trânsito para tratar do tema, e até nos representar como pretende com diferentes interlocutores, do Governo à Oposição, de tucanos a demos, não é devido à condição de liderança política negra, mas ao hábito.
A reflexão é pertinente quando, mais uma vez, esta semana, o voluntarioso Frei – que aos poucos parece deixar para trás o exílio de Luzerna – reaparece na TV para articular a aprovação pelo Senado do projeto das Cotas.
A reação de quem conhece a história, só pode ser uma: pronto! Valha-nos, Deus!
E não deu outra: na mesma matéria da Globo em que o David é visto entregando ao presidente do Senado, Garibaldi Alves, mais um manifesto, lá está o tucano Alvaro Dias (PSDB/PR) pregando o retrocesso e defendo a proposta de cotas sociais, quando este assunto já havia sido sepultado na discussão na Câmara.
O projeto que, aliás, é de autoria originalmente da deputada Nice Lobão (DEM-MA), só foi aprovado porque tem a virtude de compatibilizar a questão social, como gostam de nomear os que não querem encarar o fato de que o abismo da desigualdade social brasileira tem um componente racial explícito, a questão étnico-racial, em um critério que ninguém pode acusar de racialista, ou coisas do tipo.
Pois bem: bastou Frei David aparecer acenando a defesa das Cotas Raciais como um princípio ideológico imutável, para logo, o outro lado – o que não quer mudança nenhuma – se alvoroçar.
Pelo amor de Deus, alguém aí avise ao Frei. O senhor tem muitos talentos. Reconhecemos o seu esforço, tem uma belíssima folha de serviços prestados à Causa da Igualdade. Ainda receberá muitos prêmios e homenagens por isso. Mas, por favor: fique distante de articulações políticas para as quais, positivamente, não revela nenhuma inclinação. Neste caso, ao menos por coerência. Se não for pedir demais.