…Supremacia "nagô" revisitada: Pai João nu e de mão no bolso.


É extremamente cansativo para quem gosta de escarafunchar as evidentes e diretas relações existentes entre História (o transcorrer, o processo evolutivo da vida dos homens) e Etnologia (a especial expressão dos modos de ser destes homens, em sua interação com o tempo, o meio e o espaço), ler, ler, estudar, argumentar para bater sempre numa muralha quase intransponível de fundamentalismos pseudo científicos, voltados para escamotear interesses corporativos de grupos sociais, maquiavelicamente, de caso pensado isolados.

No que se refere à cultura negra do Brasil o problema atingiu já contornos de paroxismo, misturado à ideologismos arcaicos, transnacionalismos não menos arcaicos, calcados todos eles numa ideia de "pureza étnica" totalmente mal intencionada e fora de propósito.

É uma tecla batida sim, eu sei, mas o é de estar assim tanto tempo travada, censurada por ser incômoda, "politicamente incorreta", como se diz. Me refiro, é claro, à imposta – e suposta – hegemonia do Candomblé como ideologia-religião obrigatória do negro do Brasil. 

O carro chefe no Brasil desta nossa ignorância etnológica tão problemática (e, na minha modesta opinião já expressa aqui, tão providencial à perpetuação de um Estado ou de uma sociedade racista), é a insistente e já clássica corrente acadêmica e/ou militante do movimento negro nacional, que preconiza a supremacia improvável de uma cultura negra de caráter religioso, absolutamente inventada, supostamente "pura", "autêntica", "legítima", a despeito de todas as evidências de que somos, enquanto descendentes de africanos, portadores de uma cultura negra sim, mas de modo geral e abrangente bem diversa desta que foi tornada oficial.

As idiossincrasias desta busca por uma "pureza étnica", mesmo improvável, é um tema muito complexo que, evidentemente não cabe debater em profundidade aqui, mas pincelando-o mesmo superficialmente e para começar, podemos afirmar que se trata de uma instância de discussão muito mais política ou ideológica do que parece, pouco tendo a ver com história, religião, ou mesmo etnologia. 

E muito menos é um debate restrito às nossas relações étnico raciais.

Com efeito, a afirmação de uma "pureza étnica" (ou de uma etnogênese "evoluída") é um velho recurso sempre utilizado por movimentos transnacionalistas ou puramente nacionalistas desde que o mundo é mundo. Perpassa estas ideologias – convêm frisar – um certo viés sutilmente racista.

Existem exemplos candentes disto por aí. Os mais notórios são a afirmação da supremacia ariano-germânica dos nazistas nos anos 1940, que chegaram a inventar origens arianas para si mesmos que remontavam à Índia clássica, ou mesmo o seu sucedâneo (ou efeito colateral): o judaísmo – a mística do "povo prometido" – utilizado como premissa de mobilização nacionalista pelo Estado sionista de Israel, no fim da mesma época, em sua afirmação como ideologia de caráter expansionista, premida hoje por tantas contradições. 

No caso brasileiro, como já disse diversas vezes aqui, muito provavelmente este conceito de "pureza étnica inventada", relacionava-se no início (século 19) com as intenções corporativistas de uma pequena elite yorubana, (ou nagô, para os íntimos) oriunda de Lagos na atual Nigéria e instalada de mala e cuia em Salvador, Bahia ainda no período escravista, elite "yorubaiana" esta formada por mui ricos comerciantes, alguns deles até traficantes de escravos.

Esta estratégia, claramente elitista, teria evoluído nos dias de hoje para a assunção de interesses não menos elitistas de uma incipiente classe média negra brasileira, já sem quase nenhuma relação ou ascendência genética com os yorubanos do passado, mas ainda interessada em se valer desta sua suposta origem "superior", desta sua etnogênese "pura" como bandeira de barganha política em sua negociação com o Estado (com a elite "branca" hegemônica por suposto), sem que se necessitasse alterar em nada o status quo, na base do "farinha pouca, meu pirão primeiro".

Não é outro, reparem bem, o perfil mais evidente do movimento negro oficial brasileiro, atrelado, institucionalmente aparelhado ao poder governante (ao partido no governo, mais exatamente) burocrático, pelego, instalado em gabinetes inacessíveis e salas de seminários pretensamente acadêmicos, sempre passando ao largo dos temas e demandas mais concretas e urgentes da maioria dos negros do Brasil.

Existe enfim, aqui no Brasil, uma renitente ideologia embasando esta hegemonia suposta de uma elite afro-negra, assentada em densa e volumosa bibliografia, um arcabouço de argumentações teóricas aparentemente consistentes, apesar de calcadas em premissas históricas distorcidas, quando não inteiramente falsas.

Esta ideologia insidiosa por ser, infelizmente, adotada de forma ingênua e acrítica – quase evangélica – por um número razoável de pessoas, imiscuída que está em nossas práticas acadêmicas, artísticas e culturais como "cultura negra oficial", precisa ser discutida e relativizada, porque acaba travando qualquer possibilidade de se avançar na luta contra o racismo, senão naqueles seus aspectos mais cosméticos e superficiais, inofensivos a este status quo.

Cultura negra subalterna, aculturalismo, "paijoanismo" como estratégia para garantir migalhas de poder para uma minoria ínfima, em detrimento de uma massa negra imensa (mais de 50% da população do país) cada vez mais acossada, sitiada pela repressão do sistema.

É, sobretudo uma estratégia, além de arcaica, burra. Este colaboracionismo, esta cooptação de pequenos grupos sociais, étnicos, religiosos, não importa, por parte dos Governos, é uma velha estratégia colonial, seguida no capitalismo por ser eficientíssima (o ser humano é sórdido às vezes).

As chamadas "classes dominantes" não costumam ceder poder algum a estes grupos subalternos, meras válvulas de escape alimentadas com pequenas benesses e favores, migalhas que caem das mesas. Isto pode ser visto em qualquer filme sobre escravidão.

E nem precisa ser um Tarantino ou um MacQueen.

Tenho proposto de maneira não menos insistente – embora sem nenhum sucesso até agora – o debate desta questão tão fundamental à nossa democracia. Estamos aqui, simplesmente insistindo.

É a água batendo na pedra dura.
 

Spírito Santo