Volto a escrever para acalmar minha alma. Para que serve a escrita nesses tempos duros de morte das idéias? Maca do Blacktude diria: “É para nos fazermos juntos.” Eu concordo, as negras e os negros têm que seguir juntos nessa empreitada de construir a liberdade.
Essa liberdade incompleta não pode nos satisfazer. Minha alma rompe o mato e faço “trocentos” quilombos quando escrevo. Quilombo não se faz como capacho, quilombo se faz na marra, arrancando sangue da alma todo dia. Quilombo não se faz com uma simpatia subserviente de certos “ativistas” com seus dentes abertos toda vez que a casa branca solicita.
Em tempos de eleições um fenômeno toma as cidades: são vários fenômenos. Eu me concentrarei em um destes muitos para a nossa reflexão. Refiro-me a essa elasticidade das convicções, uma tolerância obesa com os insultos que nos são lançados, uma malemolência pragmática com os inimigos, uma frouxidão militante. Não entramos em eleições para levantar votos apenas, entramos para afirmar um projeto, para disputá-lo com quem julgamos minimamente aliados, ou no máximo parceiros possíveis para uma aliança em vista da construção de um pais melhor. Queremos uma nova Bahia, por isso não esperem de nós anarquismo de ultima hora , nem “hipismo afro-descendente”. Nós disputamos projetos .
Queremos poder para os negros e negras que fizeram esse país com sangue e vidas desgastadas. Se queremos poder para os negros , votamos em negros em todas as instâncias possíveis. Eu voto em negros e negras até para síndico de prédio.
Porque os negros e negras vieram para esse território seqüestrados
Porque o racismo nos colocou e continua colocando em desvantagem diante dos brancos e isso precisa ser corrigido
Por que nossa pauta principal não pode ser apêndice da pauta dos outros
Porque a cor da pele, ao contrário do que pretendem nos convencer mais de 30 anos depois do Ilê Aiyê e MNU afirmarem nossa consciência racial, pode significar vida ou morte em dada circunstância.
Quando uma líder Negra, tarimbada nas administrações de esquerda e de direita diz em pleno pulmões que a cor da pele ( tinta forte ou tinta fraca) não importa numa eleição, a levanta aplausos de uma platéia de maioria negra , comete um desserviço: o assassinato de idéias caras a nossa luta , uma sacanagem.
Voto em pretos, e escolho o melhor projeto. Por isso Sergio São Bernardo, 13310, um advogado socialista que entende que um projeto pan-africanista de poder é possível, um ex-camelô , lutador de boxe, líder estudantil, professor de direito e filosofia do direito , que reuniu o que há de melhor do movimento negro baiano em torno de sua candidatura. Que pisa no mato , como pisa no barro, como pisa no asfalto com a mesma majestade política que herdamos de Xangô ( de quem é Filho ) e iniciado como Ogã de Oyá .
Por isso voto em Valmir Assunção 1310, natural de nova alegria, pros lados de Itamarajú. Homem negro que partiu para São Paulo adolescente para tentar a sorte e ajudar a família. Homem negro que fundou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, que levantou a esperança do povo negro e pobre do Sertão, que atuou na Secretaria de Desenvolvimento Social do Governo e Combateu a Pobreza, que é contra grades e cercas e que repete a plenos pulmões que foi ganho para a questão racial , ou seja: nós os negros temos um projeto para o Brasil .
Por isso escrevo aqui: para me expor, expor minhas idéias e debater. Expor minha opção política pelo voto racial, comprometido com meus discursos e história na militância. Voto racial porque o racismo é a contradição principal da sociedade brasileira e precisa ser corrigido.

Hamilton Borges Walê